A Competição

Posted on Posted in Bushido Karaté-Zen

“Estou convicto que a competição em karaté mostra aos alunos que se eles querem vencer, o único caminho é a luta, enquanto que no Karaté-Zen aprendemos que se a vitória pode ser obtida sem luta. O Karaté-Zen é um modo de vida, não é um jogo. O Karaté-Zen tem um objectivo bastante elevado, ensina às pessoas que, na vida diária, a única forma de vencer, é com os outros e não contra os outros. Em japonês “hito” significa “homem” e escreve-se assim /\, duas linhas que parecem juntar-se, o que aponta que cada homem se inclina para o seu semelhante, e que cairá caso esse suporte seja retirado. Isto parece apontar para o facto de que o ser humano só pode progredir através da cooperação e não da luta. Eu penso que os dois ensinamentos são completamente diferentes, não se pode seguir ambos, pois isso depende do que queremos para a nossa vida. Eu penso que este ponto deve ser compreendido e não é difícil.”

 

Não me refiro simplesmente aos que praticam kumité de competição. Estou convencido que aqueles que acham este tipo de prática divertida, devem seguir os seus sentimentos. Embora eu veja nada de errado nisso, penso que devem admitir que isso não tem nada a ver com o conceito de karaté de mestre Egami. O que escrevi expressou minhas ideias sobre a vida, que me foram dadas acima de tudo pela disciplina e pela prática do karaté de mestre Egami, e antes pela prática do karaté de mestre Murakami.

Comecei a treinar karaté há muitos anos. No princípio, como acontece sempre, era só uma questão de emulação, uma experiência que gradualmente se transformou em conhecimento. E agora estou a começar o processo da compreensão. Descobri que o processo de compreensão só começou quando comecei a mover-me conjuntamente com o meu parceiro em movimentos naturais. Acredito que o treino é um processo de auto-aprendizagem que acontece com o relacionamento com os outros. Inicialmente eu só experimentei um relacionamento conflituoso com os outros, porque não era capaz de estar bem comigo, sem os meus colegas. Apesar de todas as minhas boas intenções, esta aproximação tornava-se sempre numa confrontação durante os treinos. E era normal que assim fosse.

Penso que a jornada que o karaté representa é extraordinária. É preciso que treinemos incessantemente com grande dedicação, humildade e paciência, com confiança total no nosso professor, a fim de que possamos agarrar, cada um à nossa própria maneira, o significado desta disciplina maravilhosa.

Quando decidimos começar a praticar karaté, escolhemos descobrir através dos nossos corpos o relacionamento entre nós e os outros, e entre nós e a natureza. Só compreendemos isto mais adiante na nossa jornada. À partida, o nosso desejo era fortalecer o nosso corpo e a nossa mente, e só com o tempo descobrimos que não o fazemos para subjugar outros.

Existimos graças às outras pessoas, não poderíamos viver por nós próprios, e devemos estar gratos por compartilhar as nossas vidas com eles. Quando pensamos na felicidade, devemos também pensar na felicidade dos outros tentando pormo-nos no lugar dos outros. É justamente, quando nos pomos no lugar das outras pessoas que o nosso treino e prática nos conduz no sentido da compreensão da mais elevada das vitórias, é então que nos tornamos num só com o nosso parceiro e ganhamos sem combater. Nos treinos necessitamos de estar juntos com o nosso colega, transformarmo-nos num com ele, para nos imaginarmos realmente no seu lugar, sentir exactamente o que ele sente, e experimentar o que ele faz. Se nós não pudermos fazer isto, será muito difícil conseguir unicamente a harmonia com nosso parceiro simplesmente através da técnica, e tudo se resumirá, inevitavelmente a uma questão de domínio sobre o outro, que é algo de diferente da via de karaté que o Mestre Egami nos ensinou. A sua via conduz-nos para esse “mundo oculto” onde o confronto, a oposição, o conflito, a dualidade e a submissão desaparecem, sendo substituídos por palavras tais como bem-vindo, acompanhar, desviar, dissolver, unir e harmonizar.

Acredito que devemos preservar os ensinamentos e os princípios de Mestre Egami através da nossa compreensão, mudando-nos e aperfeiçoando-nos a nós próprios. Precisamos de melhorar a nossa capacidade de interagir com o mundo ao nosso redor, com os outros e com a natureza. O Mestre Egami deixou-nos o seu testamento no seu livro “The Heart of Karate-do”, publicado previamente com o título “The Way of Karate Beyond Technique”. Não é necessário que mudemos as técnicas. Se a técnica mudar com os anos, será porque nos mudamos a nós próprios, porque o que queremos da vida mudou: para construir um novo tipo de existência com os outros, ou inevitavelmente contra os outros. Então o gedan barai que executamos poderá acompanhar a energia do parceiro até a dissolução da sua energia sem perturbá-lo ou aleijá-lo, de outra partiria o seu braço. Fomos habituados a concentrar a energia num ponto e consequentemente também a nossa atenção é focalizada num ponto. É desejável que cada um de nós investigue e descubra a percepção de um estado de globalidade uma “visão aberta” que inclua o ponto focal da técnica e o adversário por inteiro. Nesta dimensão, que não é somente física nem somente mental, a técnica não é concentrada somente no ponto do contacto, mas irradia através do corpo inteiro do adversário.

Isso dependerá do que desejamos que “saia” da técnica, e a técnica espelhará sempre fielmente o que nós somos no momento preciso de sua execução. Certamente não podemos ser diferentes do que somos, nem podemos ensinar o que não compreendemos, mas com o treino e o compromisso de compreender as palavras de mestre Egami podemos melhorar e assim contribuir, cada um de nós à sua própria maneira, para construir a imagem do karaté que mestre Egami desejou divulgar às novas gerações: “Um treino do espírito que conduz à harmonia, através do treino do corpo”.