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A dimensão do corpo no Bushido Karaté-Zen

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Quando “vulgarmente” se fala/pensa em Karaté associa-se quase imediatamente a “agressividade”, alguma violência até, e a técnicas de defesa: tudo ao nível do (ou que implique) contacto corporal. Se, por vezes, o comportamento de auto-defesa comporta agressividade, quando usa o movimento de resistência e anulação do movimento do outro, no entanto, a meu ver, não é o objectivo último dessa mesma postura. A auto-defesa implica e à priori (antes de ser aquilo que manifesta exteriormente, isto é, aquilo que vemos como produto final do movimento uma vez exteriorizado) vários movimentos internos (puramente subjectivos) do nosso corpo: de concentração, de auto-controle, de gestão/orientação espácio-temporal do movimento, no direccionamento do pensamento para um ponto único (aquilo que está para além do que se nos apresenta de forma imediata, nomeadamente a mão ou o pé do outro). O corpo torna-se assim não um veículo mas uma via ou manifestação intencional do pensamento/ consciência que dessa forma se exterioriza e antecipa ao que de puramente físico-mecânico o mundo, que nos rodeia, nos oferece. Por exemplo, na aprendizagem de qualquer kata tem-se obrigatoriamente presente a análise e a decomposição dos movimentos em situação (defensiva); mas, o sentido último dessa aprendizagem resulta na síntese que a consciência faz do movimento em si mesmo: a ideia de que o outro está sempre presente, mesmo na sua ausência física.

 

Tal intencionalidade da nossa consciência devolve-nos o corpo à sua verdadeira essência: a de manifestação e expressão de um ser (o Homem) que se superioriza a si mesmo sempre que habitar esta unidade (pensamento/consciência-corpo) que é intrínseca e correlativa. Por sua vez esta correlação leva-nos a outro ponto não menos essencial: à dimensão ética, ou seja, na via do Karaté-Do (passo a redundância) ao habitar-se o nosso corpo habita-se também o do outro pois a ideia da alteridade é correlativa à de identidade.

No dojo, a experiência que fazemos do corpo é prova de um mundo (e dos outros) que lhe resiste (ao corpo), logo, é certeza da subjectividade enquanto corpo. O outro aparece-nos como aquele que nos «resiste», que nos movimenta e nos obriga ao esforço de auto-superação e não de hetero-dominação. Esta é uma das dimensões formativas do Bushido Karaté-Zen: concebermos o nosso corpo (e correlativamente o dos outros) como um dos termos do binómio consciência-corpo, o que nos leva ao quanto a dimensão ética deverá estar implicada em cada movimento, acto ou gesto da nossa vivência mundana. Vejo esta dimensão como uma das vertentes do «Budo»: exercício e movimento de auto-superação constante que se por um lado flui pelo pensamento universal, por outro nele se dilui e expande… harmoniosamente.

 

Dra. Stella de Azevedo
Professora na Escola Secundária Serafim Leite de São João da Madeira
Cinto Verde – 3º Kyu