Japanese-temple

A PRÁTICA DO BUDO NA SOCIEDADE ACTUAL

Posted on Posted in Bushido Karaté-Zen

Para uma abordagem das disciplinas que constituem parte integrante da aprendizagem de um guerreiro nobre japonês (Bushi), é necessário tomar em consideração a realidade económica e social que esteve na génese desse extraordinário corpo de saberes, de técnicas, de atitudes morais que transcendiam sobremaneira a mera capacidade de combate, e que atravessou séculos e continentes, até conquistar o mundo inteiro, o Bushido. Curiosamente, essa conquista teve o seu início em grande escala depois da derrota do Japão, a única da sua imensa História. Os próprios soldados e oficiais americanos tomaram contacto com ela e ajudaram à sua grande expansão, nomeadamente o próprio presidente Roosevelt.

Sem nos desviarmos do essencial, transformando estas breves considerações numa análise histórica e social, devemos reconhecer, em primeiro lugar, que as realidades sociais e políticas no país do Sol Nascente (Nippon) são distintas das europeias, no mesmo período, embora com alguns elementos comuns, característicos de uma estrutura de tipo feudal. Não que seja lícito estabelecer uma correspondência muito directa entre ambas as realidades, pois que tal seria falsear e reduzir a modelos simplistas a história humana. Consideremos alguns pontos, que nos darão pistas para a compreensão da génese do Bushido, essência do espírito japonês. Em primeiro lugar, as suas especificidades territoriais – limitação do espaço cultivável, dispersão por ilhas de distintas dimensões, proximidade de civilizações continentais de cariz expansionista, mas também fonte de cultura, saber, religião, escrita. Por outro lado, um dado de extrema importância é a existência de uma única dinastia Imperial, cuja linhagem se fez recuar até uma origem supostamente divina, a mesma que ainda hoje é símbolo da unidade e especificidade do povo japonês. A existência de uma religião autóctone, o xintoísmo, baseada no respeito por todas as forças da Natureza, intimamente relacionadas com a figura centralizadora do Imperador, é de primordial importância. Outras forças dinamizadoras de cultura, oriundas da China, como o Confucionismo, ou introduzidas através da China, como o Budismo, marcaram a visão do Mundo, da Vida e da Morte, a estrutura social e familiar, a relação do Homem com a Natureza e o meio ambiente. A sua feliz coexistência com o xintoísmo é reveladora da capacidade de adaptação a novas realidades do povo japonês, desde tempos recuados da sua História.

Neste contexto em que a sociedade estava rigidamente estruturada, de forma hierárquica, desenvolveu-se uma cultura de defesa intransigente dos seus valores, em que a figura do Imperador funcionava como elemento centralizador. Os grandes senhores empregavam uma classe de guerreiros, os samurais, para quem a vida individual pouco valor tinha, pois o único objectivo da sua vida era a defesa do seu Senhor. O “Bushido”, via do guerreiro, ou “Kyuba no Michi”, via do arco e do cavalo, foram alguns dos nomes por que ficou conhecido o seu código de conduta e o seu modo de vida. Esta estrutura social vigorou desde o período Heian (794 – 1185), tendo terminado, oficialmente, na era Meiji (1868 – 1912), quando, em 1868, foram abolidos os privilégios sociais e económicos da nobreza que detinha a terra, bem como a classe dos samurais, dando-se aí início à divisão administrativa do Japão moderno. Durante um período que durou mais de mil anos, o Bushido desenvolveu-se, absorveu novos conceitos, tendo englobado dois níveis distintos mas inseparáveis de conhecimentos, práticas e princípios éticos, derivados do confucionismo, taoísmo, xintoísmo e budismo Zen.

Para uma compreensão mais profunda, comecemos por analisar os dois kanji (ideogramas japoneses) que formam a palavra. ‘Bu’, o primeiro, designa, na generalidade, o guerreiro, “Bushi”, mas a sua composição é bastante mais complexa. Este kanji é composto por duas raízes, a que está presente na palavra ‘Hoko’, luta, combate, e a da palavra ‘To’, presente no verbo “Tomeru”, que significa parar ou evitar. O outro kanji, ‘Do’, (que também se pode ler “Michi”), significa apenas caminho, via, tanto no sentido material como no de processo de aprendizagem pessoal. Não de um determinado conhecimento ou capacidade, o que se designa por “Manabu”, mas de uma transformação interior, de despertar da consciência. Esta noção deriva da evolução do rígido código de conduta que obrigava o samurai a colocar a segurança e prosperidade do seu senhor como objectivo principal da sua existência, desprezando a própria vida.

Por outro lado, o “Bushido” compreendia um conjunto de disciplinas e capacidades técnicas que o samurai devia dominar, e que se integravam no “Rokugei”, as seis artes: “Rei”, etiqueta; “Gun”, estratégia militar; “Sha”, tiro com arco; “Gyo”, equitação: “Sho”, erudição, composto por sua vez de “Waka”, poesia, “Sado”, cerimónia do chá, e “Kaku”, caligrafia; por fim, “Saku”, trabalho agrícola, que devia conhecer, embora fosse reservado aos camponeses. No campo do combate, devia dominar as quatro artes da guerra: “Kyudo”, tiro com arco, “Ba-jutsu”, arte equestre, “Yari”, manejo da lança, e “Ken-jutsu”, manejo do sabre.
No campo ético e moral, o samurai devia seguir os sete princípios: “Gi”, rectidão; “Yu”, coragem; “Jin”, compaixão; “Rei”, cortesia; “Makoto”, honestidade; “Meiyo”, honra; “Chugo”, lealdade.

Tais princípios foram transmitidos de geração em geração, encontrando-se documentados em várias fontes, escritas por figuras lendárias do Budo. A primeira grande obra que trouxe ao mundo ocidental um conhecimento mais profundo sobre o assunto foi o clássico “Bushido, the soul of Japan”, de Inazo Nitobe, publicado em 1900, nos Estados Unidos da América. O seu autor, embora de família de samurais da alta nobreza, não era praticante de nenhuma Arte Marcial, e professava a religião cristã. O motivo que levou um professor universitário de economia agrícola a escrever um livro sobre o Bushido é, praticamente, a fundamentação do pequeno trabalho que aqui apresento: face aos constantes pedidos dos seus colegas ocidentais, tal como de sua Esposa, sobre o modo como no Japão se transmitiam os valores morais e éticos de geração em geração, Nitobe demonstra como a tradição veiculada pelo antigo código dos samurais servia para definir modos de comportamento, tanto por meio de regras escritas como consuetudinárias, forjando desse modo o que ele denomina “a alma” do povo japonês.

Outras fontes, que podemos considerar primárias, foram sendo conhecidas no mundo ocidental muito mais tarde. Os textos clássicos dos samurais, dos quais se devem destacar o “Go Rin no Sho”, (Livro dos cinco anéis), do maior mestre de sabre e de estratégia de todos os tempos, Miyamoto Musashi (1584 – 1645), o “Hagakure”, (Escondido atrás das folhas) onde Tsuramoto Tashiro recolheu os relatos da vida de Yamamoto Tsunetomo, um dos samurais mais famosos, que considerava como objectivo máximo de perfeição e pureza atingir já em vida a unidade com a morte, e o “Budoshoshinshu”, (Leituras elementares sobre Budo), de Daidoji Yuzan.

Para uma pesquisa mais aprofundada, podemos consultar a legislação produzida, nomeadamente no período Tokugawa, que define com grande rigor os deveres a que estavam obrigadas as diversas classes sociais, bem como as penas a que estavam sujeitos, em caso de falha.
Um aspecto de particular relevância é a influência que o Bushido teve nas diversas artes e vias de aperfeiçoamento que atravessam a sociedade nipónica até aos dias de hoje, como a cerimónia do chá, “Sado”, ou a caligrafia, “Shodo”, que reflectem a transmissão directa da tradição, feita dentro de cada família, ou de Mestre para discípulo. A prática do gesto perfeito, que traduz o equilíbrio entre o espírito e o corpo, é semelhante à das disciplinas marciais, sendo a influência do budismo Zen particularmente importante nestas duas vias, onde se procura o verdadeiro eu interior, livre da influência de mesquinhos desejos materiais.


O guerreiro japonês, como sabemos através da legislação e de numerosos testemunhos da época, vivia com grande moderação. Os únicos bens materiais de que se orgulhava eram as suas armas. Ao contrário da ética desenvolvida pelo Bushido, a sociedade em que vivemos é o reflexo de valores economicistas para os quais o mérito individual é medido por aquilo que se possui.
Considerámos acima algumas das mais significativas fontes que serviram à sociedade nipónica para a sua estruturação social, ética e moral. Estas apontam, em primeiro lugar, para o “Ser”, na sua totalidade, integrado num conjunto também hierarquizado de realidades – Universo, Terra, País, Sociedade, Indivíduo, por esta ordem. Os valores do Bushido, apesar de tantas vezes em contradição com a própria realidade dos centros políticos de decisão, ao longo da História do Japão, despojam, em primeiro lugar, o indivíduo de toda a importância, que existe apenas em função da sua relação com a restante estrutura social. Desenvolvidos em séculos de guerras constantes, foram adaptados a uma vida de paz, ainda durante a vigência efectiva do Bushido. Quando este foi oficialmente abolido, na era Meiji, permaneceu ainda durante muito tempo a divisão rigorosa em classes que obrigava cada uma a não transcender as suas atribuições, pelo que a prática das Artes Marciais era estritamente reservada a uma elite social, de famílias originariamente guerreiras. É certo que a prática sem armas sempre foi desenvolvida por parte da população, tanto da plebe como do clero, com a necessidade de defesa das aldeias e mosteiros. Este tipo de prática, que está na base de vários tipos de Ju-Jutsu e Karaté, incluíam também o uso de Jo e de Bo, ou de outros instrumentos associados às actividades profissionais. Mais tarde, iriam ser aproveitados por grandes Mestres, em particular o Fundador do Karaté-do,Gichin Funakoshi (na foto), e incluídos na sua prática, quando realizou a sua transformação de técnica de defesa pessoal em Via Marcial. As formas de combate desenvolvidas pelas várias escolas de Ju-Jutsu, e transmitidas secretamente dentro de cada família, acabaram também por sofrer essa transformação. Esse processo constituiu uma das maiores criações do espírito japonês. Partir de técnicas cujo objectivo era a eliminação imediata do adversário, quer das artes dos samurais, cortando com sabre, trespassando com flecha ou lança, quer a nível das técnicas de combate inerme, das várias formas de Ju-Jutsu e de Karaté, e desenvolver um longo caminho até ao combate em que o adversário está dentro de si próprio, foi um dos caminhos mais espantosos que uma civilização jamais percorreu. Este processo permitiu ao Homem em qualquer lugar do Mundo, tendo alguém com quem praticar ou não, desenvolver ao máximo as suas capacidades físicas e espirituais, aperfeiçoar o seu comportamento, tanto a nível individual como social, e questionar-se sobre a sua relação com o Universo e a Natureza.

A abordagem das disciplinas marciais em termos desportivos define um caminho completamente oposto. Sem querer fazer algum juízo valorativo sobre a prática do desporto em geral, devo apenas considerar alguns factos que marcam a diferença de atitudes. A vida de um desportista divide-se em períodos de treino durante a sua vida activa, que termina ainda jovem, quando não teve tempo suficiente para assimilar a profundidade e o verdadeiro sentido de uma técnica. A vida de um praticante de Budo termina quando morre, e está a praticar dentro e fora do Dojo. Mesmo incapacitado, um grande mestre como Tetsuji Murakami praticava, no leito de Morte. Morihei Ueshiba, o fundador do Aikido e um dos maiores mestres de Budo de todos os tempos, praticou ainda no seu último dia de vida. Dizia Tadashi Abe, o introdutor do Aikido na Europa: “Praticar uma Arte Marcial como simples treino desportivo equivale a cultivar flores num jardim de cimento; não produz flores nem eficácia. Os desportos estão codificados por regulamentos estabelecidos para suprimir o máximo de perigo; é o objectivo do desporto. As Artes Marciais devem fomentar a audácia, o sangue frio, a resistência, o golpe de vista, diante de um ataque armado (…) num combate em que se pode perder a vida (…), não um título.”
O caso do Aikido é singular, no seio das artes do Budo. A sua especificidade nasce, em primeiro lugar, da multiplicidade das suas origens, ao contrário das disciplinas tradicionais. O seu fundador, Morihei Ueshiba (1883 – 1969), estudou profundamente várias artes marciais, com especial relevância para o Tenjin Shin’yo-Ryu, o Kashima Shinto-Ryu, o Goto-Ha Yagyu Shingan-Ryu, e o Daito-Ryu. Uma influência determinante para a criação e desenvolvimento do Aikido foi a ligação de Ueshiba ao segundo fundador da igreja Omoto, Onisaburo Deguchi. Podemos dizer que a componente espiritual no Aikido tem uma relevância superior à das outras disciplinas do Budo, no sentido em que o seu Fundador procurou sempre uma transcendência para o gesto, insistindo na génese espiritual, e em sua opinião, mística, de cada movimento, postura ou atitude. O-Sensei sempre recusou liminarmente qualquer abordagem analítica ou explicação biomecânica da execução técnica. Sabemos por depoimentos dos seus alunos que, a qualquer pedido nesse sentido para facilitar a compreensão de técnicas individuais ou sequências de movimentos preestabelecidos, O-Sensei respondia que “Budo não é 1, 2, 3…” (Morihiro Saito). Por outro lado, a tónica passa da aniquilação imediata do adversário para a inexistência de adversário, através de um processo purificador que procura unir num gesto o atacante e o executante da técnica, numa atitude de harmonia com o Universo.

Podemos contrapor que, apesar disso, as técnicas de Aikido são utilizadas pelas polícias de vários países de forma particularmente eficaz e violenta. Sabemos que O-sensei teve que ensinar, provavelmente contra sua vontade, técnicas mortais ao exército, numa determinada parte de sua vida. Sabemos também que não era esse o seu objectivo ao desenvolver o Aikido. Penso que reside aí a grande diferença entre a fase que corresponde ao Aiki-Budo, documentado no seu livro e no célebre filme de 1935, intitulado “Budo”, em que a atitude nacionalista e marcial é preponderante. Até ao seu desaparecimento, no entanto, mudou radicalmente de atitude. Nada melhor do que consultar os seus escritos, muitos deles de complexa inteligibilidade, que relevam para conceitos desenvolvidos pela igreja Omoto, ou observar a felizmente extensa série de demonstrações filmadas com que se foi documentando a sua evolução. Até à última, realizada muito pouco tempo antes do seu falecimento, é visível a superior capacidade de domínio técnico, aliada à demonstração de energia, inacreditável para um octogenário em fase terminal da sua existência. Mais incrível se torna quando sabemos, pelos testemunhos dos participantes, que, numa das mais importantes demonstrações que realizou, para o Imperador, O-Sensei se encontrava praticamente incapacitado, tendo saído da cama onde uma doença grave o manteve durante semanas, e que se transformou no momento em que entrou no tatami, exibindo uma energia inexplicável.

Na minha prática de mais de quarenta anos, tive o privilégio de estudar sob a orientação de vários grandes Mestres, dentre a elite de alunos de O-Sensei. Uma parte muito importante da minha aprendizagem técnica foi feita a partir da minha abordagem naturalmente analítica. Recordo, no entanto, que o que mais me impressionou e que, no meu ponto de vista, constitui a essência da transmissão da Via, nunca me foi possível interpretar desse modo. Guardo essas memórias como uma dádiva muito especial a que tive o privilégio de aceder, e que, em muitos encontros com mestres mais recentes, japoneses ou não, nunca mais consegui vislumbrar.
Uma das primeiras pessoas na Europa a compreender a importância do legado cultural japonês e, em particular, dos valores defendidos pelo Budo, foi António Hilmar Schalck Correia Pereira. Nascido em 18 de Julho de 1906, possuidor de extensa cultura, desde muito cedo mostrou um interesse invulgar por todos os aspectos da sabedoria oriental, tendo reunido toda a informação possível na época sobre as artes marciais japonesas, que o atraíam particularmente. É na Alemanha, onde estudou engenharia química na Universidade de Humboldt-zu-Berlin, na década de trinta, que se inicia verdadeiramente no Ju-Jutsu e no Judo marcial. Regressado a Portugal, antes do início da II Guerra, aqui procura continuar a aprofundar ao máximo os seus conhecimentos e dá início ao seu ensino. Fundou, nos anos quarenta, a Academia de Judo, o primeiro Dojo (local destinado à prática de uma disciplina de aperfeiçoamento individual) dedicado ao Judo em Portugal. Localizada na Rua de S. Paulo, aí se mantém em funcionamento até à abertura do Dojo de Entrecampos, em 1958, que passa a chamar-se “Academia de Budo”. Após a sua inauguração, consegue ver aprovado pelo governo de então, ao fim de um processo que durou alguns anos, o Estatuto da União Portuguesa de Budo, que se torna, desse modo, a associação de Artes Marciais mais antiga do nosso país, e uma das mais antigas do mundo, fora do Japão.
Para Correia Pereira, como para todos os grandes Mestres do Budo, qualquer abordagem desportiva das disciplinas marciais era equivalente ao seu desvirtuamento total. Por isso, o ensino na Academia de Budo, tal como era definido no Estatuto, caracterizava-se pelo respeito pela realidade marcial, promovendo a evolução espiritual, ética, moral e social dos praticantes:

  • Artigo – 1: A União Portuguesa de Budo (abreviadamente Ubu) tem por fim patrocinar o culto do Budo, visando a realidade, portanto distinto de jogos e desportos.
  • Artigo – 2; A Ubu adopta como holicismos os termos japoneses seguintes: BUDO, para designar o conjunto dos respectivos ramos de defesa pessoal não cultivados como desporto. BUDOKA, para designar o cultor de qualquer ramo do Budo. DOJO, para designar o local onde se pratica qualquer ramo de Budo.

(…)

  • Artigo – 8: Os sócios da Ubu têm os deveres seguintes:

(…)

  • 3 – Não contribuir por modo algum para o desprestígio da Ubu ou do Budo;
  • 4 – Abster-se de cultivar nos seus dojos qualquer ramo de Budo como desporto;

(…)
É importante recordar alguns factos e respectivas datas, que ajudarão a compreender de que modo foi difícil o seu combate.
Em 1948, por despacho ministerial, o Judo foi excluído dos exercícios classificados como desportivos. Em 57, novo despacho passa a considerar o Judo modalidade desportiva. Em 59, a sua prática foi considerada de utilidade militar, por despacho de S. Ex.a o Ministro da Defesa Nacional. No mesmo ano, outro despacho admite a distinção entre Judo marcial e Judo desportivo, ficando este subordinado ao Ministério da Educação Nacional e aquele ao Ministério da Defesa Nacional. Em 1960, por despacho de S. Ex.a o Ministro do Interior, é aprovado o estatuto da União Portuguesa de Budo que, subordinada ao Ministério da Defesa Nacional, passa a ser a entidade dirigente do Budo, e, portanto, do Judo marcial em Portugal. Dois anos depois, por sua vez, a Federação Portuguesa de Judo vê aprovados os seus estatutos, ficando subordinada ao Ministério da Defesa Nacional, passando a ser a entidade dirigente do Judo desportivo em Portugal.

Numa época em que o espírito desportivo e de competição prevalecia em todo o mundo, inclusive no Japão, o Mestre Correia Pereira tomou a seu cargo a árdua tarefa de erguer uma organização que defendesse os altos princípios do Budo. Para tal, rodeou-se de homens norteados pelos mesmos ideais, e é necessário realçar o mérito desses praticantes cuja influência foi determinante na fundação e posterior desenvolvimento da UBU.

O Engenheiro Sebastião Mário da Silveira Durão, por exemplo, foi alguém que, de forma particularmente activa, mais importância teve desde o início, e que muito contribuiu junto do governo para a aprovação do estatuto, e em todos os momentos decisivos da história da União; o Coronel João Luís Freire de Almeida, também ele um dos fundadores da UBU, que iniciou a secção de Artes Marciais do Colégio Militar, onde foi instrutor; o Dr. João Luís Franco Pires Martins, introdutor do Karaté-do em Portugal, e que, para além da sua importância como praticante, assegurou durante anos o funcionamento permanente da Academia de Budo.

Estes são apenas alguns dos praticantes que maior influência directa tiveram na vida e desenvolvimento da UBU, mas houve muitos outros que ajudaram a transformar os objectivos do Mestre Correia Pereira numa realidade. A sua obra recebeu o maior aplauso por parte dos altos responsáveis nipónicos, em particular de Minoru Mochizuki, o Mestre que reuniu o maior número de graduações em todas as Artes Marciais. Em carta deste grande cultor do Budo ao Mestre Correia Pereira, pode ler-se o seguinte: “Eu sei bem que V. não é um judoka ‘para se divertir’ e nunca esquecerei que, no que se refere ao Judo como arte de combate, V. é o único na Europa que o compreendeu verdadeiramente (…) Estou muito feliz por saber que a ‘definição sobre Judo’ foi feita no mundo do Judo graças aos seus esforços. É a primeira vez. O mérito do seu governo, neste ponto, brilhará eternamente; deu um ensinamento muito importante ao mundo do Judo. Quanto ao problema da divisão do Budo-Judo, bem como da separação da administração, pode dizer-se que é considerada uma excelente ideia por parte do Kodokan, especialmente pelos homens de elevada graduação progressivos, ao passo que uma parte de conservadores não ousa olhá-la justamente. Todavia, depois da Segunda Guerra, quando a influência da América foi poderosa, (…) declarou-se que o Judo seria apenas um desporto. Mas somente eu, respeitando o testamento de Mestre Jigoro Kano, e insistindo que o Judo não é apenas uma espécie de desporto, apoio a parte do Budo-Judo, pelo que me vejo forçado a ter muitos inimigos, (…) e Mifune, 10° Dan, compreende-me profundamente.”

Pela mesma ocasião, o Mestre Mochizuki escreveu ao então major Freire de Almeida; “Eu, como Budo-Judoka, li a sua carta com grande prazer e estou muito feliz por saber que Portugal toma a iniciativa para estabelecer o novo sistema, que, sem dúvida, deitará os reflexos luzidios ao mundo inteiro do Judo, e ao mesmo tempo estou persuadido de que os seus esforços e os do Sr. António Correia Pereira valem méritos históricos”.

Para ajudar a evolução dos seus praticantes na pesquisa da verdadeira essência do Budo, Correia Pereira manteve ao longo dos anos, uma publicação regular com artigos de grande interesse sobre Budo, que incluía questões de técnica e de filosofia, denominado “Judo”.

Para a orientação da prática na Academia de Budo, procurou encontrar uma figura que representasse a mais pura tradição do Judo marcial. Assim, e após longas negociações junto do governo japonês, foi recomendado à Academia o Mestre Masāmi Shirōka, inspector de Educação Física do Ministério da Educação Nacional do Japão, como um dos maiores mestres de Judo. Para a sua vinda, contribuíram decisivamente, entre outras, as seguintes personalidades: S. Ex.a Iotaro Koda, ex-ministro do Japão em Portugal, parente do Dr. Jigoro Kano; S. Ex.a Iuso Isono, então embaixador do Japão em Portugal; Tomiyo Takata, deputado; S. Ex.ª Hirokichi Nadao, Ministro da Educação Nacional do Japão; S. Ex.a Dr. Emílio Patrício, embaixador de Portugal no Japão; Dr. Risei Kano, presidente do Kodokan; Shigenori Tashiro, 8o Dan do Kodokan, antigo embaixador do Japão no Ocidente; Koki Naganuma, 7o Dan do Kodokan, Inspector ministerial; Kiyoshi Mizuno, 6o Dan do Kodokan; Heisaburo Fukuda, do jornal Asahi Shinbun.

O Mestre Shirōka permaneceu em Portugal durante um ano como professor efectivo da Academia de Budo, tendo chegado a Lisboa no dia 19 de Abril de 1959. Participou na II Guerra Mundial como tenente, sendo depois promovido ao posto de capitão. Citando Correia Pereira: “Shirōka, homem temperado pela sua carreira e pela guerra, sabe que a sua missão na Academia consiste em cultivar o Judo tradicional japonês como ramo do Budo. visando exclusivamente a realidade. Um dos seus primeiros cuidados foi focar a importância fundamental do Ki-Mochi (mais ou menos ‘dominar o espírito’) na formação dos budokas. O seu estribilho: Treine, treine, treine.”

De acordo com o legado de Correia Pereira, procuramos manter vivo o espírito e a prática do Budo. Numa sociedade de estrutura não feudal, movida por uma competitividade feroz, são variadas as motivações que levam pessoas de todas as idades a dedicar uma parte significativa do seu tempo à prática de disciplinas de grande exigência física, de aprendizagem lenta e difícil, onde a integridade física é posta em causa em cada sessão. Ao contrário de uma abordagem desportiva, não encontram a pequena satisfação de pensar que são superiores ao colega, por terem conseguido projectá-lo uma vez, ou tocar-lhe com o punho. O seu papel, na prática diária, é sempre o de alternar o de atacante com o de executante das técnicas de defesa. Recordo aqui um testemunho citado pelo filho de O-Sensei, Kisshomaru Ueshiba, num dos seus livros sobre Aikido, em que um aluno, magistrado, lhe disse que a sua prática o ajudou a ser melhor juiz, por lhe ter ensinado a humildade, ao ter que assumir alternadamente o papel de atacante e ser projectado ou imobilizado, e o de executante da técnica.

Em minha opinião, esse é um dos papéis que cabem ao legado dos samurais em tempo de paz. Não o de executar mecanicamente, embora com o maior rigor histórico possível, movimentos, posturas e técnicas das várias disciplinas do Budo; não aproveitar esse precioso legado para o reduzir a uma espécie de conjunto de exercícios ginásticos, nem degradá-lo para com eles reproduzir o mesmo tipo de espectáculo que procuramos numa partida de futebol. Infelizmente, em tempo de guerra em muitos locais do mundo actual, ele está a ser utilizado no seu mais imediato objectivo, o de matar e destruir. Tenhamos esperança de que a sua transcendente mensagem de paz e harmonia universal venha a ser preponderante. Não temos, para já, motivos para grande optimismo, mas não deixemos por isso de ir diariamente cumprindo o nosso objectivo de transformar cada indivíduo através da nossa vivência interior e da nossa atitude. Terminando com uma citação de Correia Pereira, do seu livro “A essência do Judo”: “uma vitória pela diplomacia é, para todos os efeitos, uma vitória do Judo.”