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DISCURSO 35º ANIVERSÁRIO DA BUSHIDO

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Amigos, companheiros e alunos, como vai longe Setembro de 1975…Que longa vai esta nossa caminhada, a que um dia demos o nome de Bushido.

Desejando a continuação de um dia agradável, desta vez, (mas não pela primeira vez),  passado na minha terra natal, na qual nasci faz hoje mesmo 53 anos, eis que é chegada a oportunidade, de vos dirigir algumas palavras.

Poderia começar por referir (e confesso que me senti tentado), que vivemos numa sociedade em que o senso comum, é tudo, menos ser comum, em que os moderadores não têm a principal qualidade que deles se espera, que é serem moderados, em que aumentam os conflitos, as insanidades, as contradições, etc., etc., etc.…

Mas não, não o vou fazer, pois chega de “profetas do apocalipse”.

Eu convido-vos antes, a partilhar um outro ponto de vista, a que pomposamente, dei o título de: “Alguns perseguem a felicidade, outros criam-na”.

Como sabem, sempre fui um paladino defensor de uma educação que prepare pessoas competentes, dedicadas, honestas e de carácter; que não tenham medo do esforço e do sacrifício, para esculpir personalidades de valor, as quais na hora da necessidade, não tenham medo de erguer a cabeça e seguir em frente, em quaisquer momentos de necessidade.

Com o vosso apoio e dedicação, todos os dias me preocupo, e ocupo, em assegurar que em cada aula, sejam introduzidos elevados níveis de consciência e sobretudo de humanização, estruturados nos tradicionais valores da sociedade, como moralidade, espiritualidade, ética, integridade e responsabilidade, tendo sempre presente o espírito de auto-superação, o aprimoramento contínuo.

Ao longo destes 35 anos, é verdade …35 anos, foi-se tornando cada vez mais fácil,  compreendermos, pelo trabalho colectivamente desenvolvido, que o objectivo do estudo do Bushido Karaté-Zen não é estudar o Bushido, mas estudarmo-nos a nós mesmos.

É impossível estudarmo-nos a nós mesmos sem alguns ensinamentos, precisamos de algumas instruções, mas, se nos limitarmos ao estudo do que foi ensinado, não nos é possível saber o que “eu” sou em mim mesmo.

Através dos ensinamentos poderemos compreender a nossa essência, a nossa natureza humana. Porém, os ensinamentos não são nós mesmos: são uma explicação sobre nós.

A prática regular e empenhada do Bushido tem servido, fundamentalmente, para elevar a compreensão de “quem somos”, apontando o caminho em direcção a ti próprio.

Verifico que estamos a contribuir para obtermos uma vida melhor através do Bushido Karaté-Zen, uma vez que este fomenta o carácter, a disciplina e, sobretudo, promove a quietude da alma e a liderança do “eu” interior, permitindo a melhor gestão dos pensamentos e das emoções.

Creio que nunca conseguiremos explorar plenamente o funcionamento da nossa mente. O pensamento que pensa o mundo, tem dificuldade em se pensar a si mesmo…e esta dificuldade é por nós, Bushidokas, aceite quotidianamente, como mais um desafio.

Melhor do que espalharmos a informação de que a tristeza e a angústia estão a aumentar, que a solidão cresce, que o diálogo está a morrer, que as discriminações aumentam, que os pensadores estão a morrer e que a qualidade de vida está a deteriorar-se, melhor que isso, é concentrarmo-nos em encontrar formas que contribuam para minorar tais falências. Sejamos artesãos da personalidade humana em vez de vulgares carpideiras.

Cada um na sua esfera de influência, tem não apenas a oportunidade, mas o dever de não falhar, ainda que seja “pecando por omissão”.

Se cada um de nós usar a sua vida para inspirar os demais, em particular a dos nossos educandos, já começou a mudança de paradigma, estamos a criar felicidade, a ensinar a verdadeira liderança: a liderança pelo exemplo. Cultivemos a tolerância e a simplicidade. Rejeitemos o fast-food emocional em que tudo é pronto, não exigindo o treino da contemplação, do desafio, da descoberta.

A qualidade de vida se esconde nas coisas mais simples. O excesso de estímulos stressantes transforma a emoção num terreno árido, empobrecendo o dicionário da sensibilidade.

Reclamar, ser impaciente, querer muito para sentir pouco, passar a vida a apontar defeitos, em si e nos outros, são sintomas de envelhecimento precoce. Muitos jovens são emocionalmente velhos.

Vivemos na era da informática e, infelizmente, estamos a automatizar-nos. Nunca tivemos acesso a tantas informações ,mas não sabemos o que fazer com elas. A maioria é inútil, não se transforma em conhecimento e experiências. Antes sufoca e deprime, criando stress e agitação no anfiteatro de muitas mentes.

Felizmente que para nós, e ano após ano, no universo das nossas relações, o Dojo (escolas), a família e os amigos, temos preservado o necessário sentido existencial, a alegria, a criatividade, a troca de experiências e, o almejado encanto pela vida.

“Alguns perseguem a felicidade, outros criam-na”, e por isso, por termos percebido, e sobretudo, agido na diferença, merecemos estar todos de parabéns.

Um forte abraço,

Vitor Silva

Celorico de Basto, 4/Set./2010