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Entrevista da Prof. Esmeralda com o Mestre Vitor Silva

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Prof. Esmeralda: Sensei, hoje como responsável máximo de um grupo que não pára de receber praticantes (e até profes­sores vindos de outras associações) qual lhe parece ser a razão mais forte para tal?

Vitor Silva: Penso que a amizade, respeito, disciplina e cama­radagem existente não só entre mim e os alunos, como também entre eles próprios será o maior motivo para tal. Creio ainda que nos últimos tempos a concorrência desenfreada levou algumas escolas a baixarem o nível de ensino. Estamos a passar por uma fase de muito má qualidade no ensino em geral, baixou-se muito a fasquia. Este é um caminho extremamente perigoso pois o gosto também se educa… e nenhum professor deve esquecer-se da sua função educativa.

Prof. Esmeralda: De entre tantos professores com quem praticou no Japão e na Europa sempre se refere a Tettsuji Murakami de forma particular. Porquê?

Vitor Silva: Sim é verdade. Mestre Murakami foi meu Sensei até falecer e será meu modelo para sempre. Trabalhei com diversos professores mas nenhum se aproximou dele. Com a pureza da sua técnica, sua personalidade, o respeito que tinha pelos alunos, enriqueceu-me de uma forma pela qual estarei eternamente reconhecido. Seu carisma era fascinante e o seu desaparecimento foi um rude golpe no Karaté Shotokai em toda a Europa. Na época poucos de nós tivemos consciência da falta que ele ia fazer. Ele era a autoridade da modalidade, sua técnica, sua elegância, sua visão da disciplina são hoje e cada vez mais reconhecidas por todos os Mestres da actualidade. O ideal da perfeição que ele procurava em todos os instantes foram para mim uma grande lição.

Prof. Esmeralda: O Sensei dirige uma Associação chamada BUSHIDO (código de honra dos Samurais). A escolha do nome foi acidental?

Vitor Silva: De forma alguma. Eu era um jovem professor e junto com alunos mais chegados escolhemos o nome que mais se identificava com a nossa razão de existir no Karaté. De facto na altura em Portugal poucos saberiam o significado mas já importavamos livros (como ainda hoje acontece) que nos trouxeram alguns conhecimentos. Aliás, essa é a função dos livros, não é?

Prof. Esmeralda: Qual o sentido que hoje tem a prática do Budo?

Vitor Silva: Tu podes escolher como ver a vida, como a queres orientar mas inevitavelmente haverá complicações, dentro de ti e com os outros. Nossa vida diária é um “campo de batalha” e o nosso maior desafio é procurar manter nossa mente livre e viver aprazivel­mente ao longo de nossas vidas. A valiosa experiência guerreira dos samurais com a espada, foi reduzida à sua essência e foi criado o espírito do Budo, ensinando-nos a maneira de viver. No dia-a-dia, bastante pacífico, apenas necessitamos das artes marciais para a auto-defesa, mas as conquistas do Budo dão-nos ocasião de treinar a nossa mente para ter cuidado, ganhar mais perspicácia, concentração e saúde, para manter nossa mente calma quando estamos agindo. O Budo dá-nos valentia quando enfrentamos as dificuldades, ensina-nos a resolver os problemas sem medo.

Prof. Esmeralda: O Sensei considera que o êxito que a sua Associação atingiu se deve a quem?

Vitor Silva: O êxito da BUSHIDO, deve-se sem dúvida, a uma equipa de colaboradores, muito competentes e empenhados, que desenvolvem as suas funções de forma altamente eficiente e ligados por fortes laços de amizade e sentido de grupo, unidos por um ideal comum.

Prof. Esmeralda: Sempre que o vejo aprecio em si uma constante evolução na sua forma de trabalho e no seu excep­cional trato pessoal. A sua estadia no Oriente (Japão e China) contribuiram de alguma forma para tal? Porque motivo foi ao Japão?

Vitor Silva: Foi sobretudo por curiosidade e desafio e porque a ingenuidade me fazia pensar que era suficiente pisar terra Japonesa para chegar a ser brilhante… Todavia ter privado e treinado com o Mestre Tomoji Miyamoto antigo companheiro do falecido mestre Murakami) que me reconheceu pela forma de treinar, foi muito enriquecedora no plano técnico e filosófico. Foi mesmo uma experiência única. Ter sido ainda convidado para ensinar Karaté no Japão por todos os Mestres presentes (após algumas semanas de ter chegado) foi o melhor reconhecimento que como artista marcial me foi dirigido e que muito me sensibilizou e respon­sabilizou também.

Prof. Esmeralda: O Sensei é um homem fascinado pelo conhecimento. Estaremos hoje mais perto dessa meta, com toda a evolução a que temos assistido nos últimos tempos?

Vitor Silva: Todos devemos fazer um esforço construtivo no sentido de levantarmos o véu da ignorância… Adquirir o conhecimento total não passa de uma utopia, mas gostaria que toda a humanidade colocasse um grau de maior verdade em tudo o que faz, tanto no Karaté como em outras áreas da vida. Mas não esqueçamos que todo o conhecimento que não passa pelo coração pode ser perigoso… A meta, penso que não deva ser o conhecimento mas a sabedoria e a diferença entre ambas não pode ser explicada mas descoberta.

Prof. Esmeralda: Os valores que o Sensei professa não colidem com a cultura hoje reinante, cada vez mais superficial?

Vitor Silva: Eu “vejo” sinais no horizonte. As pessoas estão finalmente a aperceber-se do gozo que dá fazer bem. Eu acredito (e vocês sabem-no bem) numa escala evolutiva de valores, isto é, daqui a alguns anos, alguns dos hábitos actuais serão considerados ultrapassados à luz dos pensa­mentos da época. Se fizermos uma análise da evolução da sociedade, concluímos que há apenas 2 mil anos o Homem se divertia a ver os seus semelhantes serem devorados por leões numa arena… Por isso, eu creio, que daqui a algumas décadas, práticas desportivas que ocorreram nas “arenas do séc. XX”, irão cair em desuso, como já está a acontecer com as touradas e diversos desportos de combate. Estamos cada vez mais distantes dos hábitos primitivos.

Prof. Esmeralda: Em uma aula recente ouvi o Sensei falar na cooperação com o adversário, combatendo para ajudarem-se mutuamente. Quer especificar, uma vez que para o iniciado será difícil compreender.

Vitor Silva: As Artes Marciais entraram em um período novo e diferente. Perante esta actual geração saturada e confundida, que apela à assistência de automatismos, os quais asseguram parcialmente o conforto material e a quietude moral mas que acarretam problemas psicológicos e físicos que poderíamos denominar de maneira muito conhecida “stress”, criando-nos afinal o pior dos inimigos contemporâneos, temos de procurar novos horizontes. A criatividade é a essência, a matéria prima para adaptar­mos ao nosso meio, tanto social e físico como mental e espiritual. A energia é o motor propulsor para isso. É preciso potenciar a intuição, a sensibilidade, a imaginação e para tudo isto faz falta uma grande quantidade de energia. Nesta nova era entramos em um período de renascimento, de bem-estar físico e mental, ansiando tranquilidade. Entramos numa etapa de desapego do que é material, da dependência física e mental dos elementos externos a nós. Vamos em busca da nossa origem, da natureza, do Universo.

Prof. Esmeralda: Todos os seus alunos mais antigos reparam que o Sensei está numa fase de completa lucidez, despido de angústias e de stress, possuindo a percepção absoluta do que é essencial e acessório o que para nós é de grande utilidade, mas será que sempre foi assim?

Vitor Silva: Na minha vida muitas coisas passaram, muitas ilusões, algumas raivas, algumas derrotas e vitórias e a única constante foi sempre aquilo que recomendo aos cerca de 500 praticantes pelos quais me sinto responsável, e que é o contínuo estudo e prática do Karaté-Do. Todos os artistas marciais sabem que Do é a via, o caminho e eu espero que com o tempo descubram o que lhes tenho procurado demonstrar, ou seja, que o caminho é na direcção de nós próprios…, um caminho na direcção da totalidade.

Prof. Esmeralda: Mestre, agradecendo pessoalmente mais esta “lição” enquanto sua entrevistadora pois sei que não gosta muito de “ensinar” fora do Dojo, pedia-lhe um último comentário para todos os praticantes desta nossa Associação e uma vez mais obrigado.

Vitor Silva: Em quase 30 anos de prática de Karaté esta foi a entrevista que melhor sabor me deu pelo nível das questões que só um praticante experiente pode colocar e por isso eu também te estou agradecido. Para finalizar deixo a todos os meus alunos e demais prati­cantes desta Associação um grande abraço e o seguinte pensamento: “Mesmo a mais longa caminhada começa com um simples passo.”