O Caminho Zen – excerto 2

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Para o Zen-budismo existe uma queda e, como isso, uma culpa na possibilidade de o homem continuar vivendo livremente por si mesmo. O homem se sente, e vive, como um eu separado. O egocentrismo leva-o ao egoísmo, à auto-afirmação e ao endurecimento do coração, limitando exageradamente tudo que se refira ao não-eu. Ele se sente e se situa no Centro, senão conscientemente, pelo menos inconscientemente. Esse desenvolvimento tende a acentuar-se, mas não é necessário levá-lo ao extremo. Para o Zen-budismo, as primeiras emoções egoístas da criança são inevitáveis e destrutivas. Eis porque não se pode alegar que o oriental algum dia se tenha distanciado tanto da Natureza como o europeu, pois vive ainda preso às tradições. Isso não impede que ele, ainda assim, viva lutando contra o egocentrismo, e por isso ele está longe de viver por si mesmo, como se fosse vivido e vice-versa.
     O perigo especial consiste no fato de o homem, ingenuamente, não saber disso e, se lhe explicarmos, não o poder entender. O desfiguramento da existência está relacionado com o seu egocentrismo. Seu olhar está perturbado. Ele não pode, portanto, nem comparar nem perceber a diferença entre o que ele é e o que ele deveria ser, pois tanto o que ele é como o que ele deveria ser não pode ser descrito antecipadamente. Não se trata de um outro estilo, de uma outra direcção para a sua vida quotidiana, nem se trata de uma imagem que ele possa tornar real; não se trata de nada que ele possa executar com consciência, vontade, seriedade e senso de responsabilidade, trata-se de algo totalmente diferente: algo que lhe escapa por completo, alguma coisa que só pode ser alcançada mediante uma transformação básica, por meio da “mudança”.
    Sobre isso, o Budismo não prega. Seriam apenas palavras. O Budismo espera por aqueles que se sentem constrangidos e incertos, impulsionados por uma secreta saudade.
     No que se segue, apenas será descrito o andamento da educação e da transformação dos seres que foram levados a percorrer esse caminho nos claustros zen-budistas do Japão.
    Antes, porém, seria apropriada outra observação geral. Aquele que tiver a possibilidade e a sorte de conhecer zen-budistas japoneses, num convívio duradouro, não se furtará à tentação de observá-los mesmo nas mais corriqueiras manifestações da vida diária, como se desse modo fosse possível desvendar o enigma que eles propõem. Pois ficará profundamente sensibilizado quem tiver contacto com pessoas dessa casta especial. Não apenas por seus actos e pelo que deixam de fazer, pelas palavras e pelo silêncio, eles parecem estar sob uma estrela especial; mas igualmente por seu comportamento espontâneo, por sua maneira de estar de pé, por seu jeito de andar, de tomar chá, ou pelo modo de espantar um mosquito importuno. É como se o mundo em que vivem impregnasse sua existência de uma forma incomparável, de tal modo que nada acontecesse com eles, ou à sua volta, que já não se tivesse manifestado ou que não venha a se manifestar no campo dos sentidos – centro invisível que determina a categoria e o destino de sua existência. Eles próprios jamais comentam sobre o que os comoveu, ou não os comoveu profundamente e não estão condicionados ao impulso de revelar seus conhecimentos. Com um sorriso impenetrável, eles evitam os pesquisadores e fingem não ouvir as perguntas que revelem simples curiosidade. Só conseguem aproximar-se de seus segredos as pessoas que também quiserem vivenciá-los, ingressando no Caminho.
 
O Mestre “vê” o Coração do Discípulo
    Se um dia o meu Mestre zen lesse o que aqui está escrito, talvez dissesse: Por que falar tão prolixamente sobre algo tão simples; para que tanto palavreado? Entender outra pessoa, descortinar até o mais secreto recanto de sua alma, só é possível por meio do relacionamento de plexo solar a plexo solar.* Quem se exercitou muito, recebeu a faculdade de incluir todos os demais em seu campo de força, que se irradia à sua volta em círculos crescentes. E não se irradia apenas aos homens, aos animais e às plantas, mas também às coisas. A essa irradiação ninguém e nada pode se furtar. E, uma vez incluído nessa irradiação, precisa revelar seu nome, quer queira quer não.
    O Mestre, portanto, “vê através do discípulo” a partir de seu procedimento exterior e ainda mais pelo modo como ele se expressa ao responder a perguntas. Não existe a possibilidade de fingir o que não se tem, pois no Satori não há nada que se possa tomar como conteúdo palpável de uma realidade passível de expressão. O Satori não contém verdades que se possam intuir e recitar, mas apenas um novo modo de ver, de compreender. A pessoa ou tem Satori ou não. Não é possível inventá-lo. E quem, durante anos a fio, aprendeu com professores japoneses, não se rebela mais contra esse exame que eles fazem no coração do discípulo, para saber onde ele está e, acima de tudo, o que no discípulo é experiência genuína e o que é fantasia.
A Transformação do Discípulo Pelo Satori
     Liga-se ao Satori uma transformação interior de carácter revolucionário. A princípio, o iluminado não a nota. Apenas o professor observa e nada diz; deixa-a amadurecer e aperfeiçoar-se. Gradualmente, no convívio com outras pessoas, o discípulo nota que se tornou diferente. Ao reunir-se aos demais, não se entende com eles como antes. E não pode negar que os outros são unânimes nas opiniões sobre ele. Isto, no entanto, não o torna inseguro, já que a visão recebida é por demais convincente. Agora ele é apenas mais reservado com as outras pessoas. Cada vez mais, abandona-se às suas visões e sonhos, e procura e ama a solidão.
    O que antes lhe parecia uma perda ter de ficar de lado — pois é jovem e gosta de misturar-se àqueles com que o destino o reuniu — torna-se para ele um lucro: ele busca e encontra a solidão, não em lugares distantes e tranquilos, mas criando-a a partir de si próprio; a solidão se espalha em torno dele, onde quer que se encontre, pois ele a ama. Neste silêncio, lentamente, ele amadurece. O silêncio é extraordinariamente importante para o desenvolvimento da evolução interior. O perigo consiste em falar nisso com os outros e, assim, destruir suas sementes. Mas o discípulo não se entrega a um prazer vaidoso. Quer apenas resolver o seu caso. Quer apenas expor a sua visão iluminada à visão iluminadora. Isso leva à potencialização e ao aperfeiçoamento da visão, pela sua própria força. Só se alcança isto fixando as coisas que existem num quadro, através da visão iluminada, e esse quadro, por sua vez, deve ser examinado em detalhe. Este caminho também não é percorrido intencionalmente; ele é tomado inconscientemente, por si mesmo.
É o Caminho zen na arte. E se transforma no caminho da arte.
 
* Trata-se do entrelaçamento de nervos, imediatamente sob o diafragma, que se denomina plexo solar.