O Caminho Zen – excerto 3

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Que têm eles para dar? Deveriam expor sua visão iluminada como o pintor mostra o quadro? Deveriam pregar que o homem, subjugado aos próprios desejos, jamais se libertará? Mas pregação é palavreado.
    E não é este o estilo zen. Só o que podem — ao mesmo tempo que prestam auxílio sob todas as formas (e como sabem ajudar, quando é preciso, os amigos e vizinhos!) — é demonstrar o domínio sobre os desejos, que a lei da causa e efeito pode ser quebrada. Eles podem — se os outros apenas tivessem olhos para ver — mostrar que estão livres dessa lei. E como são de desarmante humildade, ninguém se fecha contra eles. Isto significa para eles: exigir dos outros aquilo de que são exemplo; portanto, trabalho incessante em si mesmos. Eles não explicam em palavras suas obrigações, não sabem pregar ou exigir dos outros a condescendência, a paciência, a compaixão e a caridade, sem estar, eles próprios, em condições de preencher irrepreensível e completamente esses mesmos requisitos. Para avaliá-los, não se deve observar o que dizem, mas o que fazem. Num curso zen, não se valoriza a retórica. O modo como a pessoa faia não é importante, mas decisivo é o seu modo de agir.
    Os monges zen devem exercitar-se num severo …
… Olvida-se todo o “saber”, no velho sentido; através do “não-saber”, o discípulo adquire vida nova. Ao retornar às origens, por onde for ele encontrará, simples e participando do amor, a dádiva de um Caminho mais feliz que se tornou mais fácil.
O Caminho dos Exercícios
    O zen-budista bem sabe o que deve cultivar, o que deve desaprender  e o que precisa estimular. E sabe-o tão bem como o jardineiro que poda as suas árvores. Para começar, o monge zen não espera que o adepto tenha a mesma extensão de conhecimento que ele, monge, possui, mas deixa que o adepto o adquira paulatinamente. Ele sabe que não se pode exigir de pronto de uma alma não-cultivada um conhecimento mais elevado. Assim é que se começa — com delicada compreensão para um insucesso — desde baixo, com simples serviços práticos e pequenos préstimos, os quais, com a obediência e a vontade de servir, exigem todo o tipo de paciência, humildade, perseverança e autodisciplina.
    Nem mesmo os menores exercícios de autocontrole são indispensáveis na escala de exercícios destinados à obtenção da perfeição. Quando são falhos no começo, não se consegue atingir o fim. A finalidade desse comportamento é deduzir que tudo flui do Zen. Antes não se pode prever isto. Mesmo que nem todo adepto o atinja, ele fará a tentativa. Muito importante para a pessoa é o trabalho por si mesmo e aquilo a que ele leva.
    Um pequeno exemplo é oportuno.
    Certo dia, no Japão, um amigo de longa data nos visitou, um professor japonês de reconhecida fama. Exibimos-lhe um Tanzu (uma cómoda), guarnecido, de tiras de metal muito bonitas, que havíamos comprado. Disse-nos ele que, se tivesse sido consultado antes, teria aconselhado uma execução ainda melhor do móvel, e com isto a conversa foi encerrada. Para o raciocínio europeu, a resposta pareceu correcta. Nosso amigo, contudo, se repreendeu mais tarde severamente pela arrogância no acentuar o “eu”. No dia seguinte, apareceu de cartola e cerimoniosamente vestido a fim de se desculpar formalmente pelo seu discurso “fanfarrão”. Sua atitude, a princípio, foi incompreensível para nós, mas ele esclareceu que sua resposta havia sido um tanto presunçosa e que aquilo agora o perturbava. Com isso foi sentido de uma forma simples, honrada e sincera!
     E tais emoções não são exclusivas de pessoas excepcionais.
Exercícios a Partir das Bases
    Os exercícios começam desde suas bases. A princípio, são tão primitivos quanto possível. Os Mestres zen não concordam com a afirmação segundo a qual o pequeno e insignificante pode ser descurado, contanto que se cuide do que é grande e decisivo e que se mantenha o freio firme na mão. Este erro causa danos irremediáveis. Quem é indisciplinado nas coisas pequenas, falha com frequência nas decisivas, sem contar que não existe critério seguro para julgar o que, num caso isolado, pode parecer pequeno e secundário ou importante e decisivo. Uma única palavra de ira, pronunciada com mau-humor, pode causar o pior, além de ser impossível retirá-la. De nada adiantará lamentá-la depois. Ela foi pronunciada e seu efeito perdura. Mesmo se tiver sido apenas pensada, e contida no último momento, ainda assim, como simples pensamento, como desejo reprimido, pode ser mais poderosa e nefasta do que comu-mente se pensa.
    Tudo então depende, não de reprimirmos, mas sim de esquecermos enfaticamente os primeiros indícios de impaciência, de mau-humor e de cólera.
    A alma, portanto, é submetida a um cuidadoso treinamento, em que do começo, etapa por etapa, é imprescindível a continuada auto-análise. Isso não conduz a um endurecimento espiritual e, de modo algum, à repressão de emoções valiosas. O mestre interfere, quando necessário. Foi por causa dessa dureza e inflexibilidade que o Budismo foi introduzido no círculo dos Samurais. O Bushido — o Caminho do Cavalheiro — só se tornou possível graças a esses pressupostos. Os artistas, célebres pelo seu desempenho, também se submeteram a esse treinamento.
Serenidade
O japonês conhece perfeitamente a atitude da serenidade sem tê-la aprendido ou exercitado conscientemente.