O Caminho Zen – excerto 4

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O Zen-budista no Mundo, na Vida e no Cotidiano
    O zen-budista sabe que há formas de comportamento que devem ser determinadas e mesmo orientadas de fora para dentro, se é que deseja uma vida em comum suportavelmente organizada e isenta de atritos pessoais. Sabe-se que há uma determinação da vontade, proveniente do íntimo, que costuma ser moralmente excelente. Por isso, mais decididamente ele proíbe a si mesmo de interpretar a compaixão solícita como um mandamento a que o homem, por motivos técnicos ou morais, se submeteria. A pessoa que assumiu uma posição sobre a compaixão, aceitando-a como um mandamento e optando desde o início por ela, já tomou, a respeito, uma decisão talvez um tanto negativa. A compaixão encontra e preenche a sua finalidade específica apenas quando é uma manifestação espontânea de um estado de ânimo ou de espírito ocasionado pelo Zen, e ela acontece por si mesma, sem motivação, como ocorre com a respiração: só nesse caso ela é um sentimento vivo, capaz de curar. No sentido bem radical, esse é o caso de quem “se sabe” compassivo, porém ainda não é compassivo, ou então não é mais compassivo. Dessa maneira, nenhum homem verdadeiramente compassivo poderá achar os seus actos de compaixão dignos de mérito. Isso lhe pareceria tão desacertado como se ele fosse escolhido pelo fato de respirar. E como nenhuma pessoa que respira pode dizer que “ela” é quem respira — já que “é” respirada — o verdadeiro compassivo não pode dizer que “ele” é quem sente compaixão pelos outros, como se essa compaixão lhe pudesse ser creditada.
    Pelo contrário, é como se lhe acontecesse sofrer cada vez que encontrasse uma pessoa que sofre, quisesse ele ou não. Com maior razão, só pode se interessar pela dor alheia quem é profundamente despreocupado.
     Embora o zen-budista se esforce incansavelmente em seu caminho no sentido de se despreender de sua vontade própria e do impulso fatal de se afirmar como “eu”, ele ainda não voltou as costas para o mundo nem fugiu dele.
    Ao contrário, ele se firma solidamente nesse mundo, seja qual for a sua constituição, e o aceita como destino, não se importando com as circunstâncias em que é acolhido para poder aperfeiçoar a própria existência. Se ele se comporta dessa forma, não é por opinião preconcebida ou por instrução exterior, mas fundamentado em inequívocas experiências do Zen. Elas lhe tornam claro que o que desde sempre existiu, a existência do ser, é a sua própria manifestação. Esse relacionamento original torna-se independente e é vivenciado em suas múltiplas modalidades, tornando-se evidente mesmo quando algo que existe como vida humana se houver afastado tanto do ser, a ponto de parecer ter desmentido sua origem no ser.
    Em vista dessa aceitação da verdade, o zen-budista prepara conscienciosa e pontualmente o seu trabalho. O que ele inicia é levado até o fim e com isso ele desenvolve uma surpreendente energia e resistência; o que ele se propõe é levado até a conclusão, e para isso ele não se . atém ao relógio.
    O trabalho, todavia, não se lhe afigura como o conteúdo decisivo da vida. Ele deseja ter, todos os dias, um tempo livre para si, não para desperdiçá-lo ruidosamente, mas para recolher-se na tranquilidade, para empunhar o arco e a flecha ou para arranjar as flores, pintar ou concentrasse na arte budista. Ele não o faz para confirmar sua força de trabalho ou para aumentar a vontade de tra-balhar. Ao contrário, isso tem a ver com o Caminho que ele deve percorrer como zen-budista, o Caminho para si próprio e para além de si próprio.
    Ainda que se alegre quando progride em seus negócios, quando é bem-sucedido e seus esforços são reconhecidos, ele está muito longe de considerar o êxito exterior como medida para avaliar-se como pessoa. Pois o que vale para o artista vale para qualquer outro trabalhador: é o trabalho invisível e interior que decide sobre a sua categoria humana; um mendigo, visto de dentro, pode ser um rei, e um rei, pelo contrário, pode ser uma nulidade. Não há zen-budista que julgue uma pessoa pelo êxito mundano, ou que se deixe embair por resultados sugestivos. As pessoas orgulhosas e que causam nos outros essa impressão, e esperam receosamente, observando se passam despercebidas ou não, parecem perdidas para o Zen; nenhum Mestre pode curá-las, a não ser que sejam derrubadas dessa sua altivez por algum golpe duro do destino.
    Para o zen-budista, o valor interior significa esforço diário e exercício cotidiano. Assim ele permanece diariamente, a cada hora, em seu Caminho; ele vive na simplicidade da sua alma e na plenitude do seu coração, além do tempo e, todavia, no tempo, com a Vida, o Destino e a Morte.
 
Paciência e Autodomínio nas Pequenas Coisas
     Em primeiro lugar, as pequenas coisas devem ser mantidas sob disciplina. Deve-se começar por elas, pondo em ordem o que é menos importante, a fim de aumentar a força com que se dominarão as grandes coisas.
    Para o europeu, é espantoso e quase inacreditável o tempo que é dispendido no abrandamento e no domínio de manifestações que, no máximo, podem ser denominadas menos belas. Bate-se a porta quando se está mal-humorado. No Extremo Oriente, porém, isso não é tido como sintoma de bom carácter, ou como expressão de uma personalidade forte, nem mesmo como um deslize que não se leva a sério. No Japão, quem fizer isso não estará, como o europeu, achando que agiu correctamente ou, na melhor das hipóteses, desculpando-se, e dizendo: fui traído pelos meus nervos. Em vez disso, ele volta a porta, abre-a e fecha-a novamente, devagarinho, dizendo a ela: peço desculpas. Daí em diante, sem que o perceba, ele dará atenção ao modo pelo qual fecha as portas. Ou, se recebe um pacote e, cheio de curiosidade, rasga o papel e arrebenta o barbante, recorda-se tarde demais de como a curiosidade e a impaciência lhe fazem mal. No futuro, saberá conter-se, desamarrará cuidadosamente o barbante, retirará o papel e o deixará, muito bem dobrado, de lado, para só então passar ao conteúdo. Ou, se espera uma carta importante e ela chega — como é fácil ceder ao impulso de rasgar o envelope para lê-la de imediato! Se isso acontece, o oriental se controla e põe de lado a carta esperada, voltando-se para outra coisa, até vencer a pressa e esquecê-la; mais tarde, ao retomá-la, ele a abrirá como se o envelope fosse algo precioso.
     Dirá o europeu que para tudo isso é necessário tempo. Mas os orientais não têm tempo; eles tomam o tempo! Dirá o europeu: “Quanta preocupação!” Não, o que eles desejam é ser despreocupados! E o europeu perguntará: “Em que resulta isso tudo?” O resultado é que os orientais são pacientes; os que são controlados nas mínimas coisas sem importância, também manterão o controle nos problemas grandes e decisivos.
    O europeu nada mais tem a fazer que observar a si próprio, e a seus iguais, para verificar como o homem do Extremo Oriente evoluiu e tornou excelente esse método que, na verdade, não está subordinado a pequenas ninharias.
O Zen não tem Compulsão Pelo Poder ou Pela Propaganda
    O monge, um Mestre, espera até que o procurem. Ele aprendeu a ser capaz de esperar. Todavia, ele atrai magicamente os que passam a vida na necessidade. Não aceita a todos de braços abertos. Quando, porém, o Mestre elege um discípulo para o Caminho zen, o que decide essa primeira escolha é o progresso e o desenvolvimento dele. Quanto mais lento for o amadurecimento, melhor. O Zen não é confirmado pelo número de adeptos. Os que falham é porque não o podem evitar. E quem indaga, ao compreender quanto o Zen é incompreensível, se aproxima da Verdade.