O Caminho Zen – excerto

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Paciência e Autodomínio nas Pequenas Coisas

 

Em primeiro lugar, as pequenas coisas devem ser mantidas sob disciplina. Deve-se começar por elas, pondo em ordem o que é menos importante, a fim de aumentar a força com que se dominarão as grandes coisas.
Para o europeu, é espantoso e quase inacreditável o tempo que é despendido no abrandamento e no domínio de manifestações que, no máximo, podem ser denominadas menos belas. Bate-se a porta quando se está mal-humorado. No Extremo Oriente, porém, isso não é tido como sintoma de bom carácter, ou como expressão de uma personalidade forte, nem mesmo como um deslize que não se leva a sério. No Japão, quem fizer isso não estará, como o europeu, achando que agiu correctamente ou, na melhor das hipóteses, desculpando-se, e dizendo: fui traído pelos meus nervos. Em vez disso, ele volta a porta, abre-a e fecha-a nova-mente, devagarinho, dizendo a ela: peço desculpas. Daí em diante, sem que o perceba, ele dará atenção ao modo pelo qual fecha as portas. Ou, se recebe um pacote e, cheio de curiosidade, rasga o papel e arrebenta o barbante, recorda-se tarde demais de como a curiosidade e a impaciência lhe fazem mal. No futuro, saberá conter-se, desamarrará cuidadosamente o barbante, retirará o papel e o deixará, muito bem dobrado, de lado, para só então passar ao conteúdo. Ou, se espera uma carta importante e ela chega -como é fácil ceder ao impulso de rasgar o envelope para lê-la de imediato! Se isso acontece, o oriental se controla e põe de lado a carta esperada, voltando-se para outra coisa, até vencer a pressa e esquecê-la; mais tarde, ao retomá-la, ele a abrirá como se o envelope fosse algo precioso. Dirá o europeu que para tudo isso é necessário tempo. Mas os orientais não têm tempo; eles tomam o tempo! Dirá o europeu: “Quanta preocupação!” Não, o que eles desejam é ser despreocupados! E o europeu perguntará: “Em que resulta isso tudo?” O resultado é que os orientais são pacientes; os que são controlados nas mínimas coisas sem importância, também manterão o controle nos problemas grandes e decisivos.O europeu nada mais tem a fazer que observar a si próprio, e a seus iguais, para verificar como o homem do Extremo Oriente evoluiu e tornou excelente esse método que, na verdade, não está subordinado a pequenas ninharias.
 
O Zen não tem Compulsão Pelo Poder ou Pela Propaganda

 

O monge, um Mestre, espera até que o procurem. Ele aprendeu a ser capaz de esperar. Todavia, ele atrai magicamente os que passam a vida na necessidade. Não aceita a todos de braços abertos. Quando, porém, o Mestre elege um discípulo para o Caminho zen, o que decide essa primeira escolha é o progresso e o desenvolvimento dele. Quanto mais lento for o amadurecimento, melhor. O Zen não é confirmado pelo número de adeptos. Os que falham é porque não o podem evitar. E quem indaga, ao compreender quanto o Zen é incompreensível, se aproxima da Verdade.
 
A Escola Zen do Ponto da Vista do Europeu

 

Por mais misteriosa, inimaginável e inexprimível que possa ser a experiência mística a ser alcançada, o caminho que conduz a ela não deve ser nem misterioso, nem inimaginável, nem inexprimível. Para todos os que tiverem boa-vontade, ele deve ser transitável, ainda que só em alguns trechos e segundo a determinação do destino. Reina, portanto, no Zen, uma objectividade que desperta confiança. E não é de admirar que, por isso mesmo, o Caminho deva ser esquemática e tematicamente decomposto em passos isolados, cujo aprendizado e domínio será mecânico. E assim subsiste, efectivamente, um treinamento que dá a impressão de ser espiritualmente falho. Mas tudo deve dar certo, com incondicional exactidão. Ao europeu – não ao japonês – logo se torna doloroso o fato de o professor não tomar conhecimento, durante a instrução, das características pessoais do estudante. Eles não permitem formas especiais de desenvolvimento, nem as consequências desse desenvolvimento diferenciado; eles suprimem essas formas, tornam-nas desprezíveis, medindo todas com a mesma medida.

Para compreender isto, de nada adianta dizer que os japoneses são muito impessoais. Pelo contrário, os Mestres sabem perfeitamente bem que existem diferenças individuais profundas, mas não ignoram – e nisto se diferenciam dos europeus – em que ocasião elas devem ser trazidas à luz, no âmbito da mística, para serem, não só toleradas, mas autorizadas; de qualquer modo, isso não deve ocorrer no caminho que tem como objectivo a experiência mística, caso em que se deve negar e tornar inócuo e sem forças tudo o que for individual e pessoal, a fim de afastar as barreiras e estabelecer o completo “vazio” também no que for mais íntimo. Torna-se com isso questionável, no mais alto sentido, o fato de a singularidade com que somos dotados pela Natureza possuir uma categoria e um valor “pessoais”. Ora, os Mestres negam isso – a meu ver – com inteira razão. Todas essas “arestas e ângulos”, de que tanto nos orgulhamos, talvez sejam realmente “impessoais”. Os professores conseguem realizar esse treinamento, essa disciplina aparentemente destituída de espírito, apoiados na sua assombrosa experiência psicológica – uma vez que já percorreram o mesmo Caminho -, experiência que põe à sua disposição um tesouro amealhado durante séculos. Desse ponto de vista, os grandes Mestres apresentam resultados tão extraordinários quanto incríveis. O aluno que duvidar da capacidade do Mestre para ver a sua alma até o âmago mais profundo ficará imediatamente sabendo que debalde – consciente ou inconscientemente – ele se coloca na defensiva. Mas, na realidade, no Japão, o discípulo raramente se coloca em tal situação. A veneração sem reservas pelo Mestre está, por assim dizer, no seu sangue; isso faz parte da tradição do Extremo Oriente. O Mestre lhe oferece o que tem de melhor, o que será igualmente o melhor para o aluno – e o melhor que possui, sob o ponto de vista espiritual. Esse melhor constitui-se, não tanto de pensamentos que se desprendem e deixam olvidar quem os produziu, mas, em grande parte, da plenitude espiritual que apenas quem é experiente possui e, por conseguinte, não provém dele próprio.
Quando o aluno puder fazer as próprias experiências, agradecerá por isso, principalmente ao seu professor. Para o Mestre, o destino do aluno é tão valioso e importante como o seu próprio destino. O professor não se aproveita da cega crença do aluno em sua capacidade para dirigi-lo por belas palavras; ele se sacrifica pelo próprio trabalho na dedicação ao seu sagrado mister. O Mestre sempre tem tempo para o discípulo – o que é bom evidenciar.
O discípulo, portanto, dedica-lhe inteira confiança e acredita nele com fervor juvenil, jura por suas palavras e a ele se entrega incondicionalmente. O Mestre sabe e sente que, na verdade, o agradecimento, a veneração, a confiança e o amor do discípulo não são dirigidos à sua pessoa, pois a plenitude da sua força não provém dele mesmo e do que fez de si próprio pelos seus esforços, mas da união. Por conseguinte, ele não se envaidece. Mas, tampouco, proíbe a veneração; aceita-a com um sorriso, pois o discípulo, enquanto sob a direcção espiritual do Mestre, embora se esforce, não tem ainda com quem se relacionar de todo o coração (e quando tiver, esse relacionamento não consistirá para ele um relacionamento de confiança e crença, e sim de saber!). Mas, igualmente, quando o aluno não conseguir esse último relacionamento, seu agradecimento e veneração continuarão por toda a vida (a crença permanecerá sem objectivo).
Exija o Mestre o que exigir – o discípulo o fará. E não pelas exterioridades e pelas aparências adquiridas, ou pela diligência da ambição (que cedo desaparece, longe da escola), mas por um impulso interior. Para compreender isso é necessário saber como os alunos entre si se referem ao Mestre com uma espécie de santo constrangimento. Para eles, o Mestre é modelo e protótipo; os olhos dos discípulos, justamente por isso, sensíveis e penetrantes, não descobrem nele nenhuma falha, embora convivam com ele dia após dia. Ai deles se assim não fosse! Dentro do discípulo desabaria todo um mundo; e o professor, tivesse ele consciência de um erro seu, embora insignificante, abandonaria de boa mente seu alto posto, ou antes, renunciaria a dirigir os outros. Neste caminho longo e semeado de abdicações surgem embaraços, desilusões e insucessos com tanta frequência que se o discípulo não mantiver pelo professor um sentimento de confiança cega e se não confirmar constantemente a justiça do Mestre, ele acabará por desistir. Apenas essa crença sustenta o aluno; não a convicção de alcançar o objectivo, mas a de que o professor o orienta correctamente – até onde ele estiver destinado a chegar.
E se ele, antes de alcançar seu objectivo, tivesse que se deter, saberia, no entanto, como o sabem tantos, que o ter percorrido pelo menos um trecho desse Caminho valeu por uma vida. O que, na verdade, o sustenta não é, portanto, a própria crença no objectivo (que permanece longínquo e ainda inatingível); essa crença adquire eficácia apenas através do professor. Assim, a confiança no Mestre é, indirectamente, a crença no objectivo.
Ao englobar tudo isso – a esquematização do Caminho, a mecanização do ensino, o comportamento entre Mestre e discípulo – se compreenderá por que, no Extremo Oriente, no âmbito da mística, desde o início, “se deu importância ao aprendizado”. É que lá o homem não tinha condições de abandonar, ao acaso, nem o Caminho, nem a experiência da verdade, nem a vida do iniciado, mas tinha de optar pela instrução planeada e pelo exercício da influência. As escolas e a instrução mística como tais jamais existiram no Oriente, nem mesmo como experiência inicial. Excepto no caso das épocas de misticismo, quando era necessário esperar até que um mestre místico caísse do céu, e que, como um meteoro, desaparecesse, após luzir brevemente. Os apontamentos por ele deixados seriam tal-vez muito lidos e admirados durante algum tempo, e não permaneceriam sem influência para uma pequena e afeiçoada comunidade. Mas esta, a longo prazo, só se poderia manter pelo estímulo recebido, tomando cada um o que pudesse até que, finalmente, a comunidade se dividisse na interpretação das palavras do Mestre. Esse Mestre teria inflamado os corações, mas a chama acesa por ele se apagaria por não ter sido colocada no Caminho que, pela própria experiência, formaria um material que nenhuma chama jamais extinguiria.

Talvez o europeu, na antevisão do Caminho zen sofresse um golpe; ele teria muito que aprender e toparia com problemas teóricos. Talvez o egocentrismo do homem. E quanto a esse egocentrismo, o que diria?

 
O Egocentrismo do Ser Humano

 

Não há dúvida de que o egocentrismo pertence ao ser humano como as asas aos pássaros. Até aqui ele está certo. Não obstante, prepara-se no homem uma queda precisamente por causa dele, através dele. Enquanto o homem aprende a diferenciar fundamentalmente tudo o que não é ele próprio e não lhe pertence, faz-se sentir a tensão entre o “eu” e o “não-eu”, como uma contradição. Tudo o que deve ser defrontado como objectivo leva – e mais ainda, se conscientemente – a excluir-se o eu, isto é, a deixá-lo fora daquilo com que se defronta. Quanto ao pensamento, essa atitude é correcta. O pensamento é a ponte para a realização de uma vida com horizontes mais amplos, para se defrontar e fazer justiça à multiplicidade das configurações da existência, até a mais ínfima unidade, sem com isso perder de vista o todo. Assim, a individualidade humana poderá contrair-se, estreitar-se e alargar-se infinitamente.
Mas semelhante atitude se transfere agora para todos os modos de comportamento; portanto, também para aqueles em que o “eu” não se situa em perpétua confrontação, mas se desmancha no “não-eu” e desaparece. É impossível negar, todavia, que mesmo o europeu, às vezes, se coloca impessoalmente a serviço de uma causa. Mas esse desprendimento é consciente e ele gosta que o reconheçam. Até o seu amor, ele exige que lhe seja devolvido enriquecido, na medida do desprendimento de sua reserva. Quanto mais um homem estiver presente, como ele mesmo, em tudo o que pensa, contempla, sente, ama ou odeia, tanto mais ele sentirá essa consciência do existir como distinção e como missão; e quanto mais ele se sentir responsável pelo que faz e exerce, tanto mais prontamente se porá a enaltecer o “eu”. Quer ele saiba ou não, isso se infiltra em tudo, perturbando e destruindo o sensível relacionamento entre ele mesmo e a multiplicidade da existência. Portanto, tudo o que ele compreende e capta desde o início está deteriorado. O Caminho do homem para dentro de si próprio, esse aventuroso e arriscado caminho, será íngreme. O respeito a tudo o que existe, só pelo fato de existir, ele desaprende na medida em que deseja ser um eu. Ele gira sobre si mesmo; em sua preocupação consigo mesmo, acaba por revelar que a temática de sua vida é o bem-estar, é a sua preocupação com o que lhe causa dor, alegria, sofrimento, com o que lhe confere valor, poder e honrarias. Ele sente a convicção orgulhosa de ter organizado tudo, de ter limitado a influência do incalculável e do caótico na sua própria vida. A isso ele denomina progresso, cultura!
Quando, às vezes, seu coração se contrai de medo, ele toma essa sensação por uma indisposição importuna que seu bom-senso deveria dominar. E mesmo essa indisposição importuna não o perturba, nem deixa que, confuso, ele preste atenção para ver se os seus sonhos são desmentidos pela luz do dia.

Voltado para si mesmo, ele quer ser um Eu por esforço próprio. Ele denomina isso carácter e personalidade: está louco para viver de seu centro, quer ser esse centro. É um centro, que ora aqui, ora ali, foi ontem, é hoje e será amanhã, e que finalmente reclama a mais dignificante das mortes. Diante desse limite e exagerando suas possibilidades, ele muda sua postura para uma de pronunciada maldade; sua coragem de viver transforma-se em arrogância e em orgulho. Mesmo que o desejassem, esses homens não podem entender como são imperfeitos, pois seus corações estão endurecidos. Nisso reside o mais profundo motivo pelo qual o Zen-budismo renuncia à ressurreição, bem como a formar uma imagem dos homens como eles deveriam ser e a acreditar no poder das palavras.
Essas são e continuam a ser palavras que, embora produzam comichão nos ouvidos, não penetram no coração. Os monges zen conhecem apenas duas maneiras, que se correspondem, de comunicação: de um lado, a de oferecer um exemplo convincente e, de outro, a de esperar. Esperar que, em algum lugar, um coração se enterneça, sinta nostalgia, que, por estar extraviado, procure por si mesmo o contacto com outra forma de vida. Só então, utilizando-se dos seus recursos, o monge zen se volta para ele a fim de reconduzi-lo ao caminho.

 
O Caminho do Regresso

 

Esse é um caminho de volta radical, visando a esse regresso. Não se trata de reformar aqui e ali no que diz respeito à educação, à instrução ou às circunstâncias da vida; trata-se, porém, de negar tudo, de questionar tudo radicalmente, invertendo todo um estilo de vida. Isso acontece duramente e sem poupar ninguém. Quem não conseguir acompanhar o ritmo, cai no meio do caminho. Ao Zen não interessa quantos monges chegam ao destino. Quem se estatelar no caminho precisa esperar até que seu desejo seja bastante forte para dominar todos os obstáculos. Com meias medidas não se vence a batalha. Os meios zen-budistas são piores que os adversários do Zen, são piores que as pessoas neutras.
Que existe um Caminho cujo método nasceu de um sem-número de experiências e de provas, esta é a grande e profunda descoberta do Extremo Oriente. Para Buda, porém, o Caminho é a quintessência, como também e, com maior razão, para o Zen-budismo.
O Extremo Oriente levou muitos séculos para desenvolver um método, particularmente o Zen-budismo japonês, que assumiu a liderança, com o resultado de que no Japão, ao contrário do que aconteceu na China, o Zen-budismo permaneceu vivo. Passaram-se séculos na pesquisa do espírito e da alma do homem, a fim de que se pudesse orientá-lo. Mas não com imposições. A ideia de domínio seria uma não-ideia. Assim como no Extremo Oriente não se pensa em dominar o mundo exterior ou a Natureza, tornando-os servis – pois, por esse motivo não desenvolveram nem conhecimento nem técnicas, apenas importaram algumas -, da mesma forma não se pensa em dominar os homens usando meios mentais e espirituais, adquirindo poder sobre eles, vinculando-os de modo a transformar o Zen-budismo numa potência exterior. Quem entrar pelo Caminho zen – quando já tiver percorrido uma boa distância – será abandonado a si próprio. Que esteja apto ou não para o Zen, é indiferente. O importante é o que ele faz, ou o que ele é como zen. O importante é que consiga viver da Verdade, que tudo envolve, como se estivesse unido a ela; que retorne à Casa da Verdade e viva de si mesmo, como se fosse vivido, e que seja vivido, enquanto vive de si mesmo, de tal modo que a liberdade e a necessidade sejam para ele uma só coisa.