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O Mestre

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Da nossa curta ou longa experiência quantos professores seremos nós capazes de arquivar nos ficheiros da memória? Ou para empregar uma linguagem de cunho menos arquivístico, quantos reservamos nós para figurarem no íntimo cantinho de glória das pessoas que nos marcam em sentido benéfico e, por isso, as achamos dignas de serem içadas ao pedestal da nossa admiração? Certamente poucos, muito poucos. Professores a sério, tanto no sentido pedagógico, como humano (e as duas coisas acho eu que são indestrinçáveis), grandiosos pelo seu saber e pela forma “amorosa” digamos “apaixonada”, como o sabem transmitir, mestres no exemplo cívico em que também sabem pôr escrúpulo, poucos se têm alcandorado assim à nossa admiração. Tenho alguns desses, felizmente, para meu proveito e exemplo. Um desses professores que figura em relevo luminoso no meu pensamento e no de muitos dos meus companheiros, é o professor Vitor Silva.

Se há professores que sabem prender um auditório com a sua eloquência, fazer vibrar um Dojo inteiro com a sua palavra e a vivacidade e rigor dos seus gestos, poucos há como Vitor Silva , o professor que não precisa de coagir ninguém a escutá-lo. As aulas do Prof. Vitor Silva são mesmo para serem frequentadas, não porque haja um regime repressivo de faltas, mas porque são imprescindíveis. Imprescindíveis até pelo prazer que provoca na classe e que é também, o do próprio professor, ambos em plena fruição comunicacional.

Acusam-no algumas vezes de dispersão por muitos assuntos, onde o seu espírito irrequieto se perde, sempre com o fulgor de uma inteligência produtiva e de uma imaginação criadora. Para além da possível falta de tempo, a verdade é que ele reage contra um “saber” certinho, aprisionado, dogmático, bom apenas para exibir nos exames e vomitar pela vida fora…

Quem quiser, que colha o sumo das suas aulas e parta, depois, para outras buscas, cujas pistas fornece. Incómodo? Pois claro! Mas que ninguém espere de um homem exigente a facilidade e, sobretudo, o facilitismo. Nem ele sabe conspurcar a amizade, essa amizade sincera que vota a todos os seus alunos, acamaradando nos cafés e envolvendo-se em interessantes discussões sobre Karaté, Budismo, Zen, etc., com atitudes lassas e de menos rigor. Rigoroso, exigente, é com todos e, se possível, mais com os amigos…

Mas essa é a sua ética indefectível. Estou convencido de que a fama de “terrível” que tem vindo a granjear se deve a esse espírito rigoroso, exigente e intransigente na verdade que exige a si mesmo e dos outros. Mas quem tiver a sorte de conhecer o seu espírito aberto, indomável, a sua vastíssima erudição, o seu querer pulsar ao ritmo de um tempo que não é o da nossa anacrónica insularidade, a sua generosidade e capacidade de doação, a sua amizade, que é inimiga do “porreirismo” e do “deixa andar”, a sua solidariedade insolidária com os pergaminhos de uma docência magestática, a sua cumplicidade com os alunos, há-de recordar-se dele como de um verdadeiro Mestre.