O MUNDO SOMOS NÓS

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QUANDO SE VIAJA, pode-se tomar consciência de que por toda a parte os problemas humanos, embora pareçam diferentes, são na realidade mais ou menos os mesmos: o problema da violência e o problema da liberdade; o problema de como criar uma autêntica e melhor relação entre os homens, para que possam viver em paz uma vida aceitável e sem conflito permanente, não só dentro de si mesmos mas também com os seus semelhantes.
Há também, como por exemplo na Ásia, o problema da pobreza, da fome e do extremo desespero dos que vivem na miséria. E há, como acontece neste país e na Europa Ocidental, o problema da prosperidade; onde há abundância sem austeridade há violência, há todas as formas de luxo ofensivo – uma sociedade extremamente corrupta e imoral.
Há o problema da religião organizada – que por todo o mundo o homem está mais ou menos a rejeitar – e o problema do que é uma mente religiosa e do que é a meditação – que não são monopólios do Oriente; há a questão do amor e da morte – tantos problemas relacionados entre si.
Este orador não representa nenhum sistema de pensamento conceptual, nenhuma ideologia, indiana ou outra. Se formos capazes de examinar juntos todos estes problemas, mas não à maneira de um especialista ou de um técnico – porque o orador não é uma coisa nem outra – então poderemos estabelecer uma verdadeira comunicação; mas é preciso ter presente que a palavra não é a coisa, e que a descrição, por mais detalhada e complexa, por mais lógica e bela que seja, não é aquilo que é descrito.
Há todos os mundos separados das divisões ideológicas – Hindus, Muçulmanos, Cristãos, Comunistas, etc. -, divisões que têm produzido tantos males incalculáveis, tanto ódio e antagonismo.
Todas as ideologias, quer religiosas quer políticas, são insensatas, porque é o pensamento ideológico, a palavra ideológica, que infelizmente divide os homens.
Essas ideologias produzem guerras. Embora possa haver tolerância religiosa, é só até um certo ponto; para além dele, a destruição, a intolerância, a desumanidade, a violência, as guerras religiosas. De modo semelhante, existem as divisões nacionais e “tribais”, causadas por ideologias, o nacionalismo negro e as várias expressões exclusivistas.
Será então possível viver neste mundo de maneira não violenta, em liberdade, com rectidão?
A liberdade é absolutamente necessária; mas não é a “liberdade” para o indivíduo fazer o que lhe apetece, porque ele está condicionado – quer viva neste país quer na índia ou noutro lugar qualquer – está condicionado pela sociedade a que pertence, pela sua cultura, por toda a estrutura do seu pensamento.
Será então possível estar livre desse condicionamento, não ideologicamente, não como uma ideia, mas estar de facto psicologicamente, interiormente, livre? De outro modo, não vejo como possa haver democracia ou uma conduta correcta. A expressão “conduta correcta” está bastante desvalorizada, mas espero que possamos usar estas palavras para transmitir o que queremos dizer, sem nenhum sentido depreciativo.
A liberdade não é uma ideia; uma filosofia que se escreve acerca da liberdade não é liberdade. Ou se é livre ou não se é. Está-se prisioneiro, por muito bem decorada que seja a prisão; e só quando o prisioneiro já não está nela é que é livre. A liberdade não existe quando a mente está aprisionada no pensamento. O pensamento nunca é capaz de ser livre. O pensamento é a resposta da memória, do conhecimento e da experiência; é sempre produto do passado e não pode criar liberdade, porque a liberdade é algo…

…, nacionalistas, religiosas ou ainda o orgulho dos políticos, os partidarismos, as ideologias, etc.; no entanto continuamos a matar-nos uns aos outros, em nome de Deus, em nome da pátria, em nome de uma ideologia, em nome seja do que for. Já houve 15 mil guerras em 5 mil anos! E ainda não temos compaixão – ainda não temos amor.
Quando se aprofunda esta questão surge o problema inevitável do “analisador” e daquilo que é “analisado”, do “pensador” e do que é “pensado”, do “observador” e do “observado”, e o problema de saber se esta divisão entre o “observador” e o “observado” é real, no sentido de ser um problema de facto e não uma questão teórica.
Será o “observador” – o centro a partir do qual se olha, se vê, se ouve – uma entidade conceptual que se separa a si mesma do “observado”? Quando se diz que se está encolerizado, será a cólera diferente da entidade que sabe que está encolerizada? Estará essa violência separada do “observador” ? A violência não faz parte do observador? Reparem como é extraordinariamente importante compreender isto. É a realidade central a compreender, quando investigamos esta questão da transformação psicológica imediata – e não em algum estado ou algum tempo futuros.
O “observador”, o “eu”, o “ego”, o “experienciador”, o “pensador” será diferente do pensamento, da experiência, da coisa que ele observa ? Quando se contempla uma árvore, quando vê a ave em pleno voo, a luz da tarde sobre a água, o “experienciador” será diferente daquilo que observa? Quando olhamos uma árvore, alguma vez a olhamos realmente? Acompanhem-me um pouco, por favor. Alguma vez a olhamos directamente? Ou será que a olhamos através das imagens pertencentes ao conhecimento adquirido, à experiência passada ? Dizemos: “Sim, sei como a cor dela é bonita, como a sua forma é bela.” Lembramo-nos disso e então sentimos o prazer que nos dá essa lembrança, a lembrança de nos termos sentido “muito perto” dela, etc.
Alguma vez observaram o “observador” como sendo diferente do observado ? Se não se examinar isto profundamente, talvez não se consiga compreender o que vem a seguir. Enquanto houver uma divisão entre o “observador” e o “observado” há conflito. A divisão, espacial e verbal que invade a mente – com as imagens, o conhecimento, a lembrança das cores outonais que ela tinha anteriormente – é que cria o “observador”, e esse separar-se do observado é conflito. O pensamento é que cria esta divisão. Olhais o vosso semelhante, a vossa mulher ou o vosso marido, o namorado ou a namorada, quem quer que seja; mas sereis capazes de olhar sem as imagens do pensamento, sem a lembrança anterior ? Porque quando se olha com uma imagem não há relacionamento; há apenas relação indirecta entre os dois grupos de imagens, do homem e da mulher (por exemplo), a respeito um do outro; há uma relação conceptual e não um verdadeiro relacionamento.
Vivemos num mundo de conceitos, num mundo de pensamento. Procuramos resolver todos os nossos problemas, desde os mais rotineiros aos problemas psicolócos mais profundos, por meio do pensamento.
Se existe uma divisão entre o “observador” e o “observado”, essa divisão é a origem de todo o conflito humano. Quando dizeis que amais alguém, será isso amor? Não haverá nesse amor o “observador” de um lado e do outro a coisa amada, o “observado”? Esse “amor” é produto do pensamento, que se põe à parte como conceito, e nisso não há amor.
Será o pensamento o único instrumento que possuímos para tratar todos os nossos problemas humanos? Porque afinal ele não resolve, não dá resposta aos nossos problemas. E pode ser – estamos apenas a pôr a questão e não a afirmar dogmaticamente – pode ser que o pensamento não seja útil senão para questões de resposta “mecânica” e para as de carácter tecnológico e científico.
Quando o “observador” é o “observado” então o conflito cessa. Isto acontece normalmente e com bastante facilidade: em circunstâncias de grande perigo, não há “observador” separado do “observado”; há acção imediata, há uma resposta instantânea nessa acção. Quando se dá uma grande crise na vida de alguém – e as pessoas evitam sempre as grandes crises – não se tem tempo para pensar. Em tais circunstâncias o cérebro, com todas as suas memórias do passado, não responde imediatamente; apesar disso, há acção imediata. Há uma transformação imediata, psicologicamente, interiormente, quando a divisão entre o “observador” e o “observado” deixa de existir.
Vejamos a questão de maneira diferente. Vive-se no passado, todo o conhecimento é do passado. A vida das pessoas é aí, no que tem sido – preocupadas com “o que eu fui” e a partir disso, com “o que eu serei”. A nossa vida está essencialmente baseada no ontem e o “ontem” torna-nos impermeáveis, rouba-nos a capacidade da inocência, da vulnerabilidade. Assim, o “ontem” é o “observador”; no “observador” estão todas as camadas do inconsciente, assim como o consciente.
A humanidade inteira está em cada um de nós, tanto no nível consciente como nas camadas profundas do inconsciente. Somos o resultado de milhares de anos; toda a história, todo o conhecimento do passado está enraizado em cada um de nós – como qualquer pessoa pode verificar se souber mergulhar no seu íntimo, penetrar profundamente nele.
É por isso que o autoconhecimento tem uma importância imensa. Presentemente “o próprio” é em segunda mão; cada um repete o que os outros disseram, seja Freud seja outro especialista qualquer. Mas se uma pessoa se quer conhecer, não pode olhar pelos olhos do especialista; terá de olhar directamente para si mesma.
Como pode alguém conhecer-se sem que seja um “observador”? E que entendemos por “conhecer” – não estou a jogar com palavras – que entendemos por “saber”, “conhecer”? Quando é que “conheço” qualquer coisa? Digo que conheço bem o latim ou o sânscrito, ou digo que “conheço” a minha mulher ou o meu marido. Saber uma língua, conhecê-la, é diferente de “conhecer” a minha mulher ou o meu marido. Aprendo a conhecer uma língua, mas alguma vez poderei dizer que conheço a minha mulher ou o meu marido? Quando digo que “conheço” a minha mulher, isso significa que tenho uma imagem a seu respeito; mas essa imagem é sempre do passado; essa imagem impede-me de olhar para ela – que pode já estar a mudar. Portanto, poderei alguma vez dizer que a “conheço”?
Quando alguém pergunta “posso conhecer-me sem ‘observador’ ?” – vejamos o que geralmente acontece. É algo bastante complexo: aprendo algo a meu respeito; nesse “aprender” acumulo conhecimentos acerca de mim mesmo e vou usar esses conhecimentos, que são do passado, para aprender mais alguma coisa sobre mim. Com esses conhecimentos acumulados que tenho a meu respeito, olho-me e tento aprender algo de novo acerca de mim mesmo. Serei capaz disso? Não é possível.
Aprender-me a mim mesmo e ter conhecimentos acerca de mim mesmo são coisas inteiramente diferentes. Aprender é um processo constante e não acumulativo e esse “mim” é algo que está sempre a mudar – novos pensamentos, novos sentimentos, novas variantes, novos indícios, novos sinais. Este aprender não está relacionado com o passado ou o futuro; não posso dizer “já aprendi” nem “irei aprender”. Desse modo, a mente tem de estar em constante estado de aprendizagem, sempre portanto no presente activo, sempre cheia de frescura, e não entorpecida com o conhecimento acumulado de ontem. Veremos então, se aprofundarmos isso, que há apenas aprender, e não aquisição de conhecimentos; a mente torna-se então extraordinariamente acordada, penetrante e atenta, para olhar.
Nunca posso dizer “conheço-me”, e quem quer que diga “eu sei” evidentemente que não sabe. Aprender é um processo activo e constante, não é uma questão de “já ter aprendido”, ou “aprendo mais para acrescentar ao que já aprendi”. Para me aprender a mim mesmo, tem de haver liberdade para olhar, e essa liberdade não existe quando olho através do conhecimento de ontem.

Interlocutor – Por que é que a separação entre o “observador” e o “observado” produz conflito?

Krishnamurti – Quem é que produz o esforço? Há conflito quando há esforço, quando há contradição. E não é verdade que há contradição entre o “observador” e o “observado” – nessa divisão? Isto não pertence ao domínio dos argumentos, nem é uma questão de opinião – podemos vê-lo. Quando digo “isto é meu” – quer se trate de uma coisa que possuo, quer dos “meus” direitos sexuais, quer do “meu” trabalho – há uma resistência que separa, e portanto há conflito. Quando digo “sou hindu”, “sou brâmane”, ou isto ou aquilo, crio um mundo à minha volta com o qual me identifico, e isso gera divisão. Quando uma pessoa diz que é católica, já se separou com certeza dos não católicos. Toda a divisão, tanto exterior como interior, gera antagonismo.
Surge assim o problema: será que poderei possuir alguma coisa, sem criar antagonismo, sem criar essa aguda contradição, causadora de conflito? Ou há uma dimensão completamente diferente, em que o sentido de não-pos-sessividade existe, e portanto há liberdade?

I – Será possível actuar sem ter conceitos mentais? Teria podido entrar nesta sala e sentar-se nessa cadeira sem ter um conceito do que é uma cadeira? Parece dar a entender que não há nenhuma necessidade de conceitos.

K – Talvez eu não tenha sido suficientemente explícito. É evidente que precisamos de ter conceitos. Se lhe perguntasse onde é que mora, a não ser que houvesse em si um estado de amnésia, dizia-o. Esse “dizê-lo” nasce de um conceito, de uma lembrança – e precisamos dessas lembranças, desses conceitos. Mas são conceitos que dão origem às ideologias, fonte de tantos males – “você” é americano, “eu” sou indiano; “você” está ligado a uma ideologia e “eu” a outra. Essas ideologias são conceptuais e por elas somos capazes de nos matar um ao outro, embora cientificamente, no laboratório, possamos colaborar…
Mas esse pensamento conceptual (ideológico) terá algum lugar no relacionamento humano? Isso é um problema mais complexo. Vejamos como tudo o que é “re-acção” é conceptual: tenho uma ideia e de acordo com essa ideia actuo; isto é, primeiro uma ideia, uma fórmula, uma norma e depois, em concordância com isso, uma acção. Há assim uma divisão entre o conceito, ou a ideia, e a acção. O lado conceptual desta divisão é o “observador”. A acção torna-se assim uma coisa exterior a nós, e daí a divisão, o conflito.
Isto levanta o problema de saber se uma mente que foi condicionada, criada, “educada” à maneira da sociedade, se pode libertar a si mesma desse pensamento conceptual e no entanto agir sem ser mecanicamente. Poderá a mente estar em silêncio e actuar, poderá ela operar sem conceitos? Digo que é possível – mas não é por eu dizer que a afirmação tem valor. Digo que é possível e que isso é meditação: resolver o problema de descobrir se a mente – a totalidade da mente – pode estar profundamente silenciosa, livre do pensamento conceptual, tão completamente liberta do pensamento que só quando necessário pensar é que pensa.
Estou a falar-vos em Inglês – há portanto uma actividade automática a processar-se em vós. Sereis capazes de me ouvir em completo silêncio, sem qualquer interferência do pensamento, vendo que no instante em que tentais fazer isso já estais a pensar?
Será possível olhar – para uma árvore, para este microfone – sem a palavra, dado que a palavra é o pensamento, o conceito?
Olhar para uma árvore sem um conceito é bastante fácil. Mas olhar para um amigo, olhar para alguém que vos magoou, que vos lisonjeou, olhar sem um conceito, sem uma palavra, é mais difícil. Isso significa que o cérebro está silencioso; conserva a sua capacidade de reagir, de responder com rapidez, mas está tão sereno que pode olhar de maneira completa e total, graças a esse silêncio. Só nesse estado se compreende e se actua com uma acção que não é fragmentária.

I – Sim, penso que sei o que está a dizer.

K – Bem, mas é preciso fazê-lo. Temos de conhecer-nos a nós próprios; então, surge o problema do “observador” e do “observado”, de “aquele que analisa” e o “analisado”, etc. Há um olhar, sem nada disso, que é compreensão imediata.

I – Está a tentar comunicar por palavras uma coisa que diz ser impossível comunicar por palavras.

K – Há uma comunicação verbal porque tanto vós como eu compreendemos Inglês. Para comunicarmos uns com os outros de maneira completa temos, vós e eu, de ter nisso um profundo interesse e uma capacidade, uma qualidade de intensidade, que exercemos ao mesmo tempo – de outro modo não comunicamos. Se estiverdes a olhar pela janela enquanto estou a falar, ou se houver seriedade em vós e não houver em mim, então a comunicação não existe. Ora, comunicar alguma coisa que vós ou eu não tenhamos aprofundado é extremamente difícil. Mas há uma comunicação que não é verbal e que surge quando tanto vós como eu somos sérios, intensos e imediatos, ao mesmo tempo, ao mesmo nível; assim há comunhão, que não é verbal. E podemos então dispensar as palavras. Então vós e eu podemos estar em silêncio; mas terá de ser, não o “meu” silêncio ou o “vosso” silêncio, mas o de ambas as partes; então talvez a comunhão seja possível. Isso, porém, é pedir demasiado.