Opinião – Karaté Infantil

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Artigo “Opinião” escrito pela Professora Ana Paula Santos, publicado na revista nº 4, da Bushido Karaté-Zen

»Desde 1973 que se assiste à popularização das artes marciais, sobretudo Karaté.

O número de salas, de professores, de praticantes cresceu de modo descontrolado, e indivíduos de todas as idades aderiram à moda substancialmente apoiada pelos filmes que contavam as proezas dos que dominavam tais técnicas. Poucos chegavam à conclusão da impossibilidade de tais feitos, comparáveis aos tiroteios das películas de «cow-boys» em que o herói disparava 40 tiros antes de recarregar o revólver. Poucos viram, com olhos de ver, as poucas histórias honestas que chegaram até nós, como por exemplo «Os sete samurais», e menos ainda se preocuparam em colher informações quanto à idoneidade dos técnicos que dirigiam as salas onde ingressavam. Perguntas acerca de quem tinham conferido os graus que ostentavam, em quanto tempo os tinham obtido, que entidades oficiais o poderiam confirmar não se fizeram o número de vezes suficiente, e raras escolas, por seu turno, se interessavam por conhecer os objectivos que norteavam os candidatos a praticantes.

Chegou-se, por vezes, acidentalmente, à descoberta de que certos indivíduos, que pouco ou nada sabiam, se auto-graduaram em cinturões negros e sustentavam o logro na boa-fé e credulidade das pessoas que lhes pagavam o que pediam. Incrivelmente, estes casos não foram tão poucos como se poderá imaginar. Mas o verdadeiro perigo e prejuízo proveio daqueles que, não tão ignorantes do que faziam, possuidores de títulos adquiridos à pressa, em escassos um, dois ou três anos, além de uma deficiente formação moral e pedagógica, ensinavam o que de espectacular

sabiam no intuito de chamarem a si um número tão elevado quanto possível de alunos, que exploravam ao máximo. A gravidade da situação reflectia-se no clima de agressividade vivido nessas «escolas» em que os praticantes eram, por vezes, incentivados a criar situações de provocação só para testar a eficácia das técnicas que aprendiam.

Tudo isto foi extremamente negativo, prejudicial até sobretudo quando os atingidos eram adolescentes e crianças, que se metiam em problemas e agrediam colegas por dá-cá-aquela-palha ou protagonizavam cenas ridículas para impressionar os amigos.

As artes marciais, apesar de terem sofrido todas as distorções que se possa imaginar, não são técnicas de defesa e ataque no sentido estrito do termo. Antes são uma filosofia de vida em que o praticante inicia a descoberta de si e aprende a dominar e desenvolver o espírito através de uma dura disciplina física, de um treino quase sempre difícil penoso até, por vezes. O abismo que separa um verdadeiro mestre de um técnico que abusivamente reclama tal título e precisamente o plano espiritual em que a prática deve decorrer. Qualquer boa sessão, não importa em que arte marcial (e muitas há), pressupõe um treinamento mental e outro físico que serão administrados simultaneamente umas vezes e em separado outras. Dificilmente encontraremos um karateca, judoca, etc., digno desse nome, envolvido em questões de rua. Só em legítima defesa de si ou de outrem, e se não lhe restar outra solução, é que recorrerá às técnicas que domina. A característica mais marcante desse tipo de praticante é a modéstia e a simplicidade no contacto com os outros. Um espírito arrogante nunca pode residir em tal indivíduo.

Quando decidir inscrever um filho ou filha numa academia de artes marciais (não restam dúvidas de que tal actividade será benéfica sob todos os aspectos) a escolha terá de ser a mais criteriosa possível, a partir da observação da forma como aí decorrem as sessões (se vividas em calma e disciplina) e do comportamento assumido no dia-a-dia por aqueles que se sabem frequentarem a sala em questão. Convirá que a opção não seja feita a partir da opinião de amigos.    Cada um deverá concluir por si, não restringindo a observação a uma ou duas salas. Não há que ter pressa. O importante é não fazer uma má escolha e, mesmo depois dela feita, analisar com atenção as reacções da criança ou jovem e, se estas não forem do seu agrado, dirija-se aos professores e veja o que se passa. Errar é humano. Perante a constatação de que afinal houve erro não há que hesitar, a busca recomeça. Uma má experiência não implica que todos os orientadores de academias de artes marciais são maus, tal como a excelente qualidade de uns não e extensível a todos os outros.