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TIRANOS de palmo e meio

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Qual é a importância da disciplina para uma criança?

A segurança que a criança encontra na disciplina é fundamental, é ela que impõe limites. É preciso perceber que as crianças precisam desses limites e que estes lhes transmitem segurança. A longo prazo, o objectivo da disciplina é promover o autocontrolo para que a criança, com o passar do tempo, seja capaz de encontrar e estabelecer os seus próprios limites.
De exigência em exigência, de cedência em cedência, esta criança vai crescendo num mundo imaginário.
Este é um problema com que muitas famílias se deparam: um filho transformado em déspota, fazendo exigências atrás de exigências e birras atrás de birras quando não alcança os seus propósitos. Esta criança precisa de limites e, muitas vezes, os acessos de cólera são um apelo à fixação desses mesmos limites. Porque sem eles corre o risco de se tornar num adulto inadaptado à vida em sociedade.

“Quem já não assistiu, em pleno supermercado, à actuação destes tiranos de palmo e meio? A cena é certamente conhecida de to­dos: uma criança que desata aos berros, que se atira para o chão, porque os pais não cederam à sua última exigência – um bolo, um chocolate, um brinquedo, qualquer pretexto serve para mais uma manifestação do poder que exercem sobre os pais. E es­tes, envergonhados perante a exposição pública, acabam tantas vezes por ceder, “comprando” uma tranquilidade momentânea com o objecto do capricho infantil.

A cena é mesmo recorrente e pode ser visualizada tanto nos cor­redores de supermercado como em muitos lares. Lares em que quem manda é a criança. A quem os pais não se opõem. A ver­dade é que passámos de uma época em que aos adultos tudo era permitido face aos mais pequenos, em que estes não tinham voto em qualquer matéria, para uma época em que levamos ao extre­mo a noção de que a criança é uma pessoa com vontade própria, com uma personalidade definida desde muito cedo e com a qual não se deve interferir. Resultado: os pais colocam-se ao serviço dos filhos, de corpo e alma. Esta é, de facto, uma deficiente com­preensão do que é a educação. E, em vez de ajudar à construção da personalidade, contribui para gerar desequilíbrios – uma vez adultos, estas crianças sofrerão e farão sofrer. É que, para crescerem de uma forma saudável, as crianças preci­sam de enfrentar frustrações, contrariedades. Precisam de correr riscos, o que não acontece com estas crianças a quem os pais sa­tisfazem o mínimo desejo. É, sem dúvida, difícil exercer a recusa perante uma criança que se encoleriza por tudo e por nada, mas os limites são fundamentais para crescer.

E quem são estes pequenos tiranos? São sobretudo rapazes e sobretudo filhos únicos ou nascidos tardiamente, de pais mais velhos. De tão desejados, acabam por ser adulados, ao ponto de nada lhes ser negado. Este ciclo da tirania começa logo no berço: quantos pais não correm a embalá-lo ou a pegar no pequeno rebento ao colo mal ouvem o primeiro choro? Assim habituado, o bebé já não adormece sem a presença do pai ou da mãe e ra­pidamente aprende que, se chorar, terá o conforto que reclama.

E chora, e chora, e chora…

De exigência em exigência, de cedência em cedência, esta crian­ça vai crescendo num mundo imaginário, um mundo onde os adultos dizem sempre sim, onde tudo é possível, onde o menor dos seus desejos é uma ordem e qualquer contrariedade uma injustiça. Até que ingressa na escola, onde tenta exercer a mes­ma tirania. Mas, muito provavelmente, sem o mesmo sucesso, sendo frequente que estes pequenos déspotas acabem sós, sem amigos e tendo apenas os pais como objecto de perseguição.

Acabam, muitas vezes, por ser vítimas da sua própria tirania: os especialistas em Pedopsiquiatria acreditam que este comportamento traduz a esperança de lhes serem impostos limites; de cada vez que os pais cedem, agravam a provoca­ção, numa espiral de exigências de que os adultos nunca sairão vencedores e em que as crianças sofrem inevitavelmente. A agressividade para com os adultos é uma constante, sobretudo verbal mas também física. Com uma variante: a da chanta­gem emocional protagonizada por uma criança cabisbaixa, subitamente humilde e que, à beira das lágrimas, não hesita em acusar – “vocês não gostam de mim!”. Está conseguida mais uma vitória!

Este não é seguramente um ambiente fa­miliar saudável. Quando se apercebem de que estão perdidos num ciclo vicioso, os pais admitem procurar ajuda. E de­vem fazê-lo: porque aos três ou quatro anos ainda é possível fazer evoluir os comportamentos, aos cinco ou oito já é mais difícil. Porém, a alternativa de um especialista não deve fazer descurar algu­mas regras de bom senso que se podem revelar úteis.

É a permissividade que gera a tirania in­fantil, pelo que se impõe um investimen­to na autoridade dos progenitores. Um dos passos para que a criança entenda que existe essa autoridade é que os dois – pai e mãe – estejam de acordo, ou pelo menos não manifestem a discordância em público. Um dos pais não pode fun­cionar como o elo mais fraco, digamos assim, aquele que toma o partido do filho enquanto o outro se assume como aque­le que repreende. Face à intolerância in­fantil, a atitude deve ser concertada para ter o devido peso. Deixar de justificar os caprichos do pequeno déspota também ajuda, sendo preferível aceitar o confron­to do que capitular e desistir, mesmo que seja por cansaço.

Em casa, quem dita a lei são os pais. São eles que fixam o horário das refeições e o momento de ir para a cama, por exem­plo. É claro que a criança pode pedir o seu prato preferido ou para se deitar um pouco mais tarde, mas a última palavra é dos adultos. Não se trata aqui de passar do 80 para o 8, de tudo proibir depois de tudo se ter permitido, mas sim de contra­riar as exigências, colocando condições para se satisfazerem alguns desejos. Ver televisão sim, mas só depois de concluí­dos os trabalhos de casa – eis um exem­plo concreto. Se a criança recusar, há que ser firme, nada de ir atrás das emoções e voltar atrás perante um vale de lágrimas. Perante estes ditadores, há que evitar longas discussões, não se lhes podendo dar o mesmo tempo de antena: é que eles argumentam e contra-argumentam até à exaustão, sabendo como convencer os pais. Durante um confronto, há que ser parco nas palavras, optando por lembrar as regras e por deixar claro que são para respeitar. E colocar um ponto final no assunto!

Se estas crianças não forem contraria­das correm o risco de se tornar adultos inadaptados. Uma criança que não co­nheceu limites será um adulto incapaz de lidar com as experiências adversas: um desgosto de amor, por exemplo, ou a dificuldade em encontrar emprego. Afundar-se-à perante as provações da vida, vivendo sistematicamente infeliz e podendo cair em dependências ou em depressão.

Há, pois, que agir enquanto é tempo.”