ZEN e a arte do tiro com arco – excerto

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… durante tanto tempo, os meus esforços inúteis para estirar o arco «espiritualmente», em vez de me orientar desde o início no sentido da respiração correcta. «Um grande mestre — respondeu — deve ser simultaneamente um grande educador, pois estes dois atributos são para nós inseparáveis. Se tivesse começado as lições com exercícios respiratórios, nunca o mestre o teria conseguido convencer da sua importância decisiva. Era necessário que as suas próprias tentativas o levassem ao naufrágio, antes de estar preparado para agarrar a bóia de salvação que ele lhe atirava. Acredite, sei por experiência própria que o mestre o conhece a si e a qualquer dos seus discípulos melhor do que nós a nós próprios. Lê fundo na alma dos seus discípulos, mais do que eles gostariam de admitir.

 

DEPOIS DE UM ANO DE TREINO INTENSIVO, SER capaz de estirar o arco de forma «espiritual», ou seja, energicamente e sem esforço, não é propriamente um resultado extraordinário. No entanto, eu dei-me por satisfeito, já que começava a perceber porque motivo se designa de «arte gentil» este tipo de autodefesa — trazida para um sistema que se destina a derrubar o adversário, recuando perante a vigorosa agressão de forma elástica e inesperada, sem qualquer dispêndio de forças, de maneira a conseguir que a força do adversário se vire contra ele próprio. Por isso, desde tempos imemoriais, o arquétipo desta arte é a água, que se esquiva, sem nunca ceder. Também Lao Tse diz que a vida autêntica se assemelha à água que, nada recusando, a tudo se ajusta. Além disso, na escola do mestre circulava a sentença: Quem escolhe o principio fácil, encontra o fim difícil. O meu princípio foi extremamente difícil. Assim sendo, não poderia eu encarar com confiança tudo aquilo que me esperava, e cujas dificuldades já vislumbrava vagamente?
O passo seguinte era soltar a seta, até agora executado ao acaso. Estava, por assim dizer, entre parêntesis, à margem dos exercícios. E o que sucedia com a seta era ainda mais indiferente. Já era suficientemente satisfatório que ela acertasse no disco de…

…vénia profunda apresenta arco e seta como oferendas. Depois coloca a seta, ergue o arco, estira-o e detém-se, permanecendo em estado de máxima atenção espiritual. Depois do soltar fulminante da seta, e consequentemente da tensão, o arqueiro permanece no lugar que ocupa imediatamente após o tiro, o tempo que for necessário até ter de inspirar outra vez, no seguimento de uma expiração longa e prolongada. Então ele baixa primeiro os braços, inclina-se perante o alvo e se não há mais tiros a executar, retira-se impassível para as traseiras do recinto.
Com isto, o tiro com arco transformou-se numa cerimónia que interpreta a «Doutrina Magna».
Mesmo se o discípulo neste estádio ainda não tiver apreendido o alcance dos seus tiros, terá compreendido de uma vez por todas por que o tiro com arco não pode ser nenhum desporto, nenhum exercício físico. Compreende por que motivo a técnica passível de aprendizagem tem de ser conscientemente treinada até à exaustão. Quando tudo depende da sua capacidade de se integrar no acontecer, esquecido de si e livre de intenção, a execução exterior tem que dar-se por si só, sem necessidade da reflexão para dirigir e controlar.
A MANEIRA JAPONESA DE ENSINAR CONDUZ DE facto ao domínio incondicional das formas. Treinar, repetir e repetir o repetido num progresso lento e continuado são as suas características. Tem pelo menos isto em comum com todas as outras artes ligadas à tradição.
Mostrar e exemplificar, integrar-se e imitar — estas são as etapas fundamentais no acto de ensinar, muito embora nas últimas gerações, com a introdução de novas matérias os métodos didácticos europeus tenham criado raízes, sendo assimilados com inegável compreensão. Como é possível então, que apesar do entusiasmo habitual pela novidade, as artes japonesas tenham permanecido essencialmente afastadas da influência destes métodos?
Não é fácil responder a esta pergunta. No entanto tentarei fazê-lo, ainda que em linhas gerais, no sentido de tornar um pouco mais claro o estilo de ensino e o significado da imitação.
O aluno japonês traz consigo três coisas: boa educação, um amor apaixonado pela arte que escolheu e uma veneração incondicional pelo seu mestre. Desde tempos imemoriais, a relação professor/aluno pertence aos laços fundamentais da vida e implica uma grande responsabilidade para o professor, que ultrapassa grandemente o âmbito da sua matéria de ensino. …
… toda a distância e toda a profundeza, com «olhos que ouvem e
ouvidos que vêem».
Desta forma, o mestre leva o aluno a passar através de si próprio. No entanto o aluno vai-se tornando cada vez mais receptivo ao que o mestre lhe mostrara e de que certamente lhe falara muitas vezes, mas cuja realidade só agora começa a ser tangível para ele, em virtude das suas próprias experiências. Não importa que nome o mestre atribui àquilo que quer dizer, ou se de todo o nomeia. O aluno compreenderá, mesmo que ele guarde silêncio.
Mas com isso se inicia um movimento interior decisivo que o mestre segue com atenção. Sem lhe influenciar o curso através de novos ensinamentos, que apenas o iriam perturbar, ajuda o discípulo da maneira mais íntima e secreta possível: através de uma transmissão directa do espírito. Segundo a fórmula conhecida nos círculos budistas, «tal como uma vela acesa acende outras», assim o mestre transmite o espírito da arte genuína, de coração a coração, para que se iluminem. Se a graça lhe está reservada, o discípulo mergulhará em si e lembrar-se-á que a obra interior a realizar, se de facto quiser cumprir a sua vocação de artista, é mais importante que todas as obras exteriores, por mais ofuscantes que sejam.
A obra interior consiste, porém, em que o aluno, como ser humano que é, como indivíduo, como o «eu» que ele sente ser e sempre reencontra, se transforma na matéria de uma criação e realização formal, no fim da qual se encontra a mestria. Nela convergem ser-artista e ser-humano, no sentido mais amplo da palavra, como num nível superior. Pois a mestria afirma-se como forma de vida porque se enraíza na verdade ilimitada e, sustentada por ela, é a arte primordial. O mestre já não busca, mas encontra. Como artista, é um sacerdote; como humano, é um artista, em cujo coração — no seu agir e não-agir, criar e silenciar, ser e não ser — penetra o olhar de Buda. O ser humano, o artista, a obra, são um só. A arte da obra interior, que não se separa do artista como a exterior, e que ele não pode fazer, mas apenas ser, nasce de profundezas que o dia desconhece.
O caminho da mestria é íngreme. Por vezes o único incentivo que anima o discípulo a continuar é a sua fé no mestre, através de quem a mestria o olha. Com a sua vida, ele dá-lhe o exemplo da obra interior, e convence-o unicamente através da sua existência.
Nesta etapa, a imitação atinge o seu sentido último e mais maduro: conduz o discípulo a participar do espírito da mestria, seguindo o mestre.
Até onde chegará o aluno, é coisa que já não preocupa o professor e mestre. Uma vez ensinado o caminho correcto, deve deixá-lo prosseguir sozinho. Só lhe resta uma coísa a fazer, para que o aluno supere a prova da solidão: separa-o dele, exortando-o afectuosamente a chegar mais longe que ele e a «elevar-se sobre os ombros do mestre».
Para onde quer que o leve o seu caminho, o aluno pode perder o mestre de vista, mas jamais esquecê-lo. Ser-lhe-á sempre fiel, com uma gratidão disposta a qualquer sacrifício, que substitui a veneração incondicional do principiante e a fé salvadora do artista. Inúmeros exemplos demonstram que essa gratidão supera largamente a medida habitual entre as pessoas.
… com indiferença. O nosso desempenho foi tão bom que o mestre não teve necessidade de pedir a indulgência do público com um sorriso constrangido. Foram-nos entregues diplomas redigidos no acto, nos quais se indicava o nível de mestria alcançado por cada um. O mestre, em vestes sumptuosas, encerrou o exame com dois tiros magistrais. Poucos dias mais tarde foi atribuído o título de mestra em ikebana à minha mulher, também num
exame público.
A partir daí o aprendizado tomou um novo rumo. Contentando-se com alguns disparos à guisa de exercício, o mestre passou a expor a totalidade da «Doutrina Magna», do tiro com arco, adaptando-a aos níveis que havíamos alcançado. Embora ele se expressasse por imagens enigmáticas e comparações obscuras, bastavam-nos algumas escassas indicações para percebermos do que se tratava. O mestre detinha-se na essência da «arte sem artifício», à qual o tiro com arco teria de conduzir, se quisesse atingir a perfeição. «Quem for capaz», disse ele, «de disparar com a casca da lebre e o pêlo da tartaruga, ou seja, acertar no centro do alvo sem arco (casca) nem seta (pêlo), será mestre no sentido mais elevado da palavra, mestre da arte sem artifício, ele mesmo é a arte sem artifício, e com isso, Mestre e não-Mestre, simultaneamente. Através desta transformação, o tiro com arco — movimento sem movimento, dança sem dança — atinge o Zen. Certa vez, ao perguntar ao Mestre como faríamos para continuar sem ele, depois do regresso a casa, ele respondeu-me: «A sua pergunta já foi respondida, quando eu o levei a submeter-se a uma prova. O senhor chegou ao nível em que professor e aluno já não são dois, mas um só. Pode, portanto, em qualquer momento, separar-se de mim. Mesmo que entre nós se estendam vastos mares, eu estarei sempre presente, se treinar como aprendeu. Não terei de pedir-lhe para não abdicar, sob nenhum pretexto, do treino regular, para não deixar passar um único dia, sem que tenha executado a cerimónia, mesmo sem arco nem seta, ou pelo menos, sem que tenha respirado correctamente. E não preciso de lho pedir, porque sei que não poderá, nunca mais, abandonar o tiro com arco, espiritual nesta sua forma. Nunca me escreva sobre isso, mas envie-me de vez em quando fotografias onde eu possa ver como estira o arco. Então saberei tudo o que tenho a saber.
«Devo prepará-lo apenas para uma coisa. No decorrer destes anos, ambos, tanto o senhor, como a sua mulher, se modificaram. Esta é uma consequência da arte do tiro com arco: Uma confrontação do arqueiro consigo mesmo, até ao mais profundo e recôndito de si. É provável que mal se tenha apercebido, até agora, dessa transformação, mas irá forçosamente senti-la quando reencontrar, no seu país, amigos e conhecidos: já não sentirá a afinidade de antes. Verá muitas coisas com outros olhos e irá medi-las segundo outros padrões. Comigo também foi assim, e esse é o destino de todo aquele que foi tocado pelo espírito desta arte.» À guisa de despedida, que não foi nenhuma despedida, o mestre ofereceu-me o seu melhor arco. «Se atirar com este arco sentirá a presença da mestria do mestre. Não o ponha nas mãos de qualquer curioso! E se um dia ele já estiver ultrapassado, não o guarde como uma recordação! Destrua-o, para que não reste nada, a não ser um punhado de cinzas!»
… compreender nem alcançar, e que só se revela a quem o experimentou.
Segundo Takuan, a perfeição da arte da espada consiste em que nenhum pensamento afecte o coração, quer seja acerca do «eu», do «tu», acerca do adversário e da sua espada, da espada própria e do modo de a manejar, ou mesmo acerca da vida e da morte. «Assim, tudo é vazio: tu, a espada desembainhada e os braços que a manejam. A própria ideia de vazio não está lá. Desse vazio absoluto nasce o desdobramento extraordinário do fazer.»
O que é válido para o tiro com arco e para a arte da espada aplica-se, neste ponto, a todas as outras artes. A mestria em pintura a tinta-da-china (para dar outro exemplo) manifesta-se precisamente nisso, que a mão que domina incondicionalmente a técnica execute e revele o pressentido, no exacto momento em que este toma forma no espírito, sem que haja, entre uma coisa e outra, a espessura de um cabelo. A pintura torna-se uma escrita automática. Também neste caso as indicações dadas aos pintores poderiam ser simplesmente: observa bambus durante dez anos, converte-te tu próprio num bambu, a seguir esquece tudo e — pinta.
O mestre da espada volta a ser natural como o principiante. Por fim reconquista a despreocupação que tinha perdido no início do aprendizado, agora sob a forma de traço imperturbável de carácter. No entanto, ao contrário do principiante, o mestre é reservado, sereno e modesto, sem qualquer vontade de se gabar. Entre os dois estádios, da iniciação e da mestria, estendem-se anos longos e férteis de treino incansável. A capacidade técnica tornou-se espiritual através da influência do Zen e o praticante transformou-se, vencendo-se interiormente e ficando cada vez mais livre de etapa para etapa. Já não lança mão da espada tão facilmente, só a desembainha quando é inevitável, pois a espada transformou-se na sua alma. Por isso pode acontecer que ele evite o combate com um adversário indigno e grosseiro, que se vangloria do seu feixe de másculos, aceitando dele um sorriso que o acusa de cobardia. Por outro lado, movido por um grande respeito pelo adversário, pode entrar num combate que só poderá levar este último a uma morte honrada. Vislumbramos aqui os sentimentos que estão na base da ética do Samurai, o incomparável «caminho do cavaleiro», também chamado Bushido. Assim, para o mestre, a «espada da verdade», que ele conhece e que o orienta, está acima de tudo o resto: acima da fama, da vitória e mesmo da vida.
O mestre, tal como o principiante, não conhece o medo, mas ao contrário deste torna-se de dia para dia mais imune ao temor. Ao longo de anos de constante meditação ele descobriu que, no fundo, vida e morte são uma e a mesma coisa, e pertencem ao mesmo plano do destino. Por isso já não distingue a angústia da vida e o medo da morte. Ele tem prazer em viver neste mundo — o que é muito característico do espírito Zen — mas em qualquer altura está preparado para separar-se dele, sem se deixar perturbar pela ideia da morte. Não é por acaso que o símbolo mais puro do espírito do Samurai é a frágil flor de cerejeira. Tal como a pétala tocada pelo raio de sol matinal se desprende e desliza para a terra, cintilando graciosamente, também aquele que não …